31/10/2013

Olhar para ontem


Não vale a pena falarmos, para quê, quanto mais falamos mais a gente se magoa um ao outro, fomo-nos distanciando tanto com o tempo, sinceramente nunca imaginei que isto acontecesse, não era assim ao princípio mas nunca é assim ao princípio, as coisas começam a correr mal devagarinho, não damos conta e nisto, de repente, tão longe um do outro, linguagens diferentes, falta de paciência, silêncios que magoam, frases a que não se responde, uma irritação surda, uma impaciência que se tenta disfarçar sem a conseguir disfarçar totalmente, um desconforto mudo mas presente, cada vez mais presente, uma espécie de enjoo, uma espécie de desgosto, o que faço aqui, o que fazes aqui, qual o motivo de continuarmos juntos se não faz sentido, qual o motivo de teimarmos ainda? Se ao menos houvesse alguma coisa que pudéssemos tentar, tu e eu, sentarmo-nos os dois no mesmo sofá, nem que não conversássemos, sentarmo-nos apenas, um ao lado do outro, tu a veres televisão, por exemplo, há aquela novela brasileira que gostas, e eu a olhar para ontem, sempre foi a minha especialidade, olhar para ontem, e permanecermos assim uma hora ou duas, em paz, pode ser que sejamos capazes de encontrar alguma paz, o que é que achas, não estou muito seguro disso mas sei lá, existem surpresas, voltarmos a habituar-nos um ao outro, devagarinho, e tirar prazer disso, pelo menos algum, ainda que pequeno, prazer disso ou, pelo menos, uma ausência de desprazer, o que já não seria mau, pergunto-me se ainda gostamos um do outro e, sinceramente, não conheço a resposta, penso que não, penso que sim, penso que um bocadinho, lá ao fundo, sob o tédio, o ressentimento, o cansaço, porque tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes, o Carlos, por exemplo, acha-te fascinante, o cretino.
- A Amélia é fascinante
aquela tua amiga das saias curtas considera-me o máximo que bem lhe percebo nos olhos, fica de cigarro apagado, feita estátua, a mirar-me e não seria idiota tu inclinares-te para o Carlos e eu para a tua amiga, bastava passarem uns meses para nos fartarmos deles, tanto fascínio e tanta estátua cansam, e daí, quem sabe, não, deixemo-nos de fantasias, tanto fascínio e tanta estátua cansam mesmo, olhemos as coisas de frente, sem infantilidades, cansam mesmo, a questão importante, quer dizer, a única questão realmente importante, é saber se nos cansámos um do outro, do Carlos e da tua amiga podemos, ou não, ocupar-nos mais tarde, no que me diz respeito é não, no que te diz respeito suponho que também, e se a gente voltasse, ou antes, se a gente tentasse voltar a namorar, não sei se sou capaz, não sabes se és capaz, calculo eu, mas o que se perde em tentar, um namoro tímido, lento, envergonhado ao princípio mas que vai crescendo, crescendo, ainda não somos velhos, ainda não desistimos de ser felizes, pois não, o que te parece sermos felizes um com o outro, um beijo aqui, um beijo ali, uma palmadinha no rabo que, se calhar, excita, uma ida ao cinema, um fim de semana fora, num hotel qualquer perto do mar, se não for muito caro podemos, ouvir as ondas no escuro, da cama, enquanto nós, não faças essa cara, enquanto nós tal e coiso, há quantos meses nós não tal e coiso, nós não nada, tu de camisa de dormir transparente, eu, para variar, sem peúgas, se me permites uma confissão, perdoa ser atrevido, acho, como exprimir-me, acho que, não leves a mal, acho que continuo a, palavra de honra, amar-te, isto é a sério, não é da boca para fora, não é assim no ar, acho que continuo a amar-te e, desculpa a presunção, atrevo-me a pensar que continuas a amar-me, se estiver enganado não hesites em dizer que eu aguento, no ponto em que as coisas estão aguento tudo, mesmo esse telefone a tocar agora que não convinha nada que tocasse e tu
- Carlos
sem ouvires o que eu digo, tu, de olhos fechados
- Carlos
tu a sorrires sem ser para mim
- Quando?
tu
- Este fim de semana acho que posso, sim
tu
- Um hotel em Madrid adorava
tu
- O meu marido 
tu
- Há séculos que esse deixou de conta 
tu
 - A que horas? 
tu
- Estou pronta às três
tu
- Buzina da rua que eu desço
tu 
- Agora não posso falar muito
tu 
- Às três horas tenho a mala à porta 
e, se às três horas tens a mala à porta, talvez me possas fazer o favor de deixar escrito aí, num papel, o número da tua amiga das saias curtas que, de certeza, há-de gostar de acordar comigo em Barcelona.
António Lobo Antunes
da Revista Visão

20/10/2013


Dia 61.
 Atravessei o buraco da agulha. Do outro lado, um mundo surpreendente. Nem freguesias, nem distritos, nem países, sequer. Quero dizer, não há nações. E não há discursos, nem propaganda. Os pobres não são pobres, porque não há ricos. Há coragem. E conta muito a opinião dos outros. Ninguém conhece o roubo. Não há polícias, existem apenas pessoas que se respeitam e acreditam. E confiam. E há sempre respostas para as perguntas. Não há necessidade de provedores nem reguladores nem promotores públicos. As fechaduras têm como função evitar que as portas batam e os Bancos têm como função evitar que, pontualmente, as pessoas tenham dificuldades. O trabalho é organizado conforme as aptidões de cada um e o ensino regulado pelos que sabem ensinar. Os salários são justos e suficientes. Assim como os impostos. Os museus estão cheios de visitantes. Ninguém deixa de pagar o que pede emprestado e o governo democraticamente eleito é constituído pelos cidadãos mais competentes em cada área. A sua primeira preocupação é a qualidade de vida dos cidadãos. Há um Ministério do Amor. E um coeso Sindicato de escritores, artistas e músicos. Não se utilizam recibos verdes, nem azuis, nem de qualquer outra cor. Foram extintas as armas, banidas as guerras. Desconhece-se a corrupção e ninguém parece saber o que são as drogas. O mercado é transparente, as acções são de valor firme porque são as imputadas ao valor moral de cada cidadão. A única violência conhecida é a da natureza. E Deus já não é preciso. Fez, bem feito, o que pôde e o que soube, e deixou o restante entregue à capacidade dos homens. Se quiserem atravessar também o buraco da agulha, inscrevam-se. Quem ainda não souber assinar, faça uma cruz.
Joaquim Pessoa

19/10/2013

Ausência


 Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
 Ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
 Magoa, que se limita à alma, mas que não deixa,
 Por isso, de deixar alguns sinais - um peso
 Nos olhos, no lugar da tua imagem, e
 Um vazio nas mãos, como se tuas mãos lhes
 Tivessem roubado o tacto. São estas as formas
 Do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
 As coisas simples também podem ser complicadas,
 Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
 Porém, é o sonho que me traz à tua memória; e a
 Realidade aproxima-me de ti, agora que
 Os dias que correm mais depressa, e as palavras
 Ficam presas numa refracção de instantes,
 Quando a tua voz me chama de dentro de
 Mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
 Como dizer que a tua ausência me dói.
 Nuno Júdice

09/10/2013

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"Todos nós somos impossíveis tradutores de sonhos. Na verdade, os sonhos falam em nós o que nenhuma palavra sabe dizer."

Mia Couto

29/09/2013

Amei demais


Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

Joaquim Pessoa

28/09/2013

Mar português

 
 
Se o oceano não fosse
essa casa de Cabral
esse sal, que à água doce
trouxe às naus de Portugal

O movimento maior
que levanta o albatroz
num grito que deu a voz
à fala do Adamastor

Se o mar não fosse o caminho
das terras da nossa terra
que guerras teria a paz
que paz nos traria a guerra

Ai, se este mar não soubera
o que ninguém adivinha
que nova carta escrevera
o Pêro Vaz de Caminha

E as índias da nossa idade
no mais fundo da viagem
dão vice-reis da coragem
guerreiros da eternidade

Esse mar que Luíz Vaz
derrotou com um poema
mensagem que o tempo traz
porque tudo vale a pena

Há esse cântico negro
do mais régio dos encantos
de alma grande tão pequena
que nunca atrevera tanto

Fez-se ao mar a caravela
com panos de liberdade
e ao cheiro de outra canela
o reino fez-se cidade
 
Lúcia Moniz

 

25/09/2013

Algumas coisas

 A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Manuel António Pina,

24/09/2013

?

"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, s...em jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

Fernando pessoa

23/09/2013

Sabedoria


 Desde que tudo me cansa,
 Comecei eu a viver.
 Comecei a viver sem esperança...
 E venha a morte quando
 Deus quiser.

 Dantes, ou muito ou pouco,
 Sempre esperara:
 Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
 Voava das estrelas à mais rara;
 Outras, tão pouco,
 Que ninguém mais com tal se conformara.

 Hoje, é que nada espero.
 Para quê, esperar?
 Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
 Se quero, é só enquanto apenas quero;
 Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
 E venha a morte quando Deus quiser.

 Mas, com isto, que têm as estrelas?
 Continuam brilhando, altas e belas.

 José Régio

21/09/2013

Ai, Margarida


 

 

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo, 
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer
 
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.
1-10-1927

Álvaro de Campos

20/09/2013




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

  *

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

16/09/2013

?

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"...
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.


Eugénio de Andrade

15/09/2013

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Hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...

MIA COUTO

14/09/2013

?



Eu amo tudo o que foi
 Tudo o que já não é
 A dor que já não me dói
 A antiga e errônea fé
 O ontem que a dor deixou
 O que deixou alegria
 Só porque foi, e voou
 E hoje é já outro dia.

 Fernando Pessoa

09/09/2013

Eternamente tu...


 O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
 O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
 Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
 Meu amor, o tempo somos nós

 O espaço tem o volume da imaginação
 Além do nosso horizonte existe outra dimensão
 O espaço foi construído sem princípio nem fim
 Meu amor, tu cabes dentro de mim

 O meu tesouro és tu
 Eternamente tu
 Não há passos divergentes para quem se quer
Encontrar

 A nossa história começa na total escuridão
 Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão
 A nossa história é o esforço para alcançar a luz
 Meu amor, o impossível seduz

 O meu tesouro és tu
 Eternamente tu
 Não há passos divergentes para quem se quer
 Encontrar

 Jorge Palma

07/09/2013

Dia 291.




 Sou o teu coração e por isso te guio nesta floresta de palavras.
 O que nunca te disse não importa agora, está fora do meu ma-
nual de estratégia. Sim, porque só um coração possui uma es-
tratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo.
 Vamos. O amor é uma grande viagem.
Joaquim Pessoa

27/08/2013

Destino



 à ternura pouca
 me vou acostumando
 enquanto me adio
 servente de danos e enganos
 vou perdendo morada
 na súbita lentidão
 de um destino
 que me vai sendo escasso
 conheço a minha morte
 seu lugar esquivo
 seu acontecer disperso
 agora
 que mais
 me poderei vencer? 

Mia Couto 

25/08/2013

Chamar-te meu amor...



 Dizer que tudo em ti é movimento
 e que há corças nas selvas em redor
 do amor que às vezes faço em pensamento
 ou do que eu penso quando faço amor.

 Dizer que em tudo escuto a tua voz
 no mar no vento na boca das searas
 o maior amor do mundo somos nós
 cobrindo a solidão de pedras raras.

 Dizer tudo o que eu digo nunca basta
 pois para ti não chegam as palavras
 "meu amor" é uma expressão que já está gasta
 mas tem sempre um aroma de ervas bravas.

 É por ti tudo o que faço e digo e chamo
 por ti eu tudo invento e tudo esqueço
 dou tudo o que há em mim quando te amo
 mas nem sei meu amor se te conheço.

Joaquim Pessoa
foto desconheço Autor

23/08/2013

?


 
 
Não: devagar.
 Devagar, porque não sei
 Onde quero ir.
 Há entre mim e os meus passos
 Uma divergência instintiva.
 Há entre quem sou e estou
 Uma diferença de verbo
 Que corresponde à realidade.
 
 Devagar...
 Sim, devagar...
 Quero pensar no que quer dizer
 Este devagar...
 Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
 Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
 Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
 
 Talvez isso tudo...
 Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
 O que é que tem que ser devagar?
 Se calhar é o universo...
 A verdade manda Deus que se diga.
 Mas ouviu alguém isso a Deus?
 
 Álvaro de Campos

22/08/2013

?


A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de há muito se apagou....

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.

Cora Coralina

21/08/2013


 

“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.

 Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.

 Dormiria pouco, sonharia mais.

 Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.

 Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.

 Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…

 Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.

 Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.

 Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.

 Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…

 Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.

 Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.

 Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.

 A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.

 Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.

 Tantas coisas aprendi com vocês Homens…

 Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.

 Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.

 Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.

 São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”

 
Gabriel Garcia Marquez

16/08/2013


 
Ora pois, foi tal e qual como vos digo:
 Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim
 - Ou ela, ou eu!
 E ficou resolvido que no dia doze
 Minha Mãe parisse,
 E pariu!
 
 Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
 Como se fosse um feito glorioso
 Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
 Por mim,
 Ainda disse que não.
 Mas o seu anjo da guarda
 Era forte e tenebroso…
E aquele frágil cordão
 Deixou de ser o meu pão,
 O meu vinho
 E a paz eterna do meu coração
 Mesquinho.
 
 Deixou de ser o silêncio
 Delicado e agradecido
 Dos meus instintos menores…
Deixou de ser o norte daquele lago
 Onde dormia o meu corpo
 Sem alegria e sem dores.
 
 Deixou de ser aquela verdadeira
 E sagrada ignorância do meu nome.
 Que Satanás me disse, quando disse:
 - Respira e come,
 Respira e come,
 ANIMAL!
 (A voz de Satanás já nesse tempo
 Era humana e natural!...)
 
 Deixou de ser um mundo e foi um outro.
 Foi a inocência perdida
 E a minha voz acordada…
Foi a fome, a peste e a guerra.
 Foi a terra
 Sem mais nada.
 
 Depois,
 Sem dó nem piedade a vida começou…
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
 E, ao ver que eu era homem,
 Corou…
 
Miguel Torga