03/01/2013

A confissão do duplo


Deixei de atravessar as noites, há muito,
como quem atravessa as ruas, sem olhar,
com a pressa dos olhos colada ao rasante
voo das pombas sobre as tílias, sobre as casas.
Agora meço as palavras e os passos,
meço o fragor dos dias como se medisse
a minha parca dimensão ao rés das estrelas.
Multipliquei-me em tantas páginas
que tudo dizendo a meu respeito
nada dizem sobre mim, fingidas e densas
como os livros da loucura da infância.
Digo bem, dos livros. É neles que me resumo,
tragicamente, porque nenhum me esgota,
porque deixo que me cerquem, vorazes,
com o seu saber circular e ondulante.
Quando me vejo agora ditado na cama, nas camas
da minha angústia adormecida e vaga,
o que eu vejo é sombra e não a luz
é o sarcasmo e não a festa. É o fel.
Sento-me na soleira da porta, arquejante,
a ver alguém que passa fingindo ser eu.
 
José Jorge Letria

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