24/02/2013

NOCTURNO


Como se fosses noite e me atirasses
 Uma corda de músculos e rosas.
 Como se fosses noite e me deixasses
 Deslumbrado com todas as sombras,
 Com todos os silêncios,
 Com todos os passeios de mãos dadas com o impossível,
 Com todos os minutos,
 Os lentos, os belos, os terríveis minutos
 Que se escoam com a angústia nas escadas.
 Como se fosses noite e acordasses
 Todos os olhares furtivos aos bancos vazios,
 Todos os passos hesitantes que ninguém segue
 Mas que deixam na rua deserta,
 Na cidade ausente,
 O arabesco triunfal dum arcanjo que passa,
 O rasto vitorioso dum condenado que dança,
 Rindo dos deuses que o julgaram.
 
Como se fosses noite e arrastasses
 O tule hierático e vermelho da cauda de todas as prostitutas
 Que desafiam o mistério, roçagando,
 A ganga de todos os operários
 Que sofrem o mistério, fumando,
 O cabeção ingénuo de todos os marujos
 Que sonham o mistério, ondulando,
 A renda esfarrapada, esvoaçante e preciosa de todos os invertidos
Que inventam o mistério, desesperando

 E a carne, o sangue,
 O cheiro a suor e a sono de todos os vadios,
 De todos os ladrões que dormem nas esquadras
 E têm o mistério, ousando!
Ah! Se tu fosses noite e me atirasses
 A um poço de membros e de raiva
 Onde plantas carnívoras crescessem
 E onde Deus - se existisse - talvez me abrisse os braços!
 
ARY DOS SANTOS

 

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