Como se fosses noite e me atirasses
Uma corda de músculos
e rosas.
Como se fosses noite
e me deixasses
Deslumbrado com todas
as sombras,
Com todos os
silêncios,
Com todos os passeios
de mãos dadas com o impossível,
Com todos os minutos,
Os lentos, os belos,
os terríveis minutos
Que se escoam com a
angústia nas escadas.
Como se fosses noite
e acordasses
Todos os olhares
furtivos aos bancos vazios,
Todos os passos
hesitantes que ninguém segue
Mas que deixam na rua
deserta,
Na cidade ausente,
O arabesco triunfal
dum arcanjo que passa,
O rasto vitorioso dum
condenado que dança,
Rindo dos deuses que
o julgaram.
Como se fosses noite e arrastasses
O tule hierático e
vermelho da cauda de todas as prostitutas
Que desafiam o
mistério, roçagando,
A ganga de todos os
operários
Que sofrem o
mistério, fumando,
O cabeção ingénuo de
todos os marujos
Que sonham o
mistério, ondulando,
A renda esfarrapada,
esvoaçante e preciosa de todos os invertidos
Que inventam o
mistério, desesperando
E a carne, o sangue,
O cheiro a suor e a
sono de todos os vadios,
De todos os ladrões
que dormem nas esquadras
E têm o mistério,
ousando!
Ah! Se tu fosses noite e me atirasses
A um poço de membros
e de raiva
Onde plantas
carnívoras crescessem
E onde Deus - se
existisse - talvez me abrisse os braços!
ARY DOS SANTOS

Sem comentários:
Enviar um comentário