27/05/2013


Matou-a numa manhã tão clara que nunca mais deixou de a ver.
Os anos passaram. Mas nada levavam com eles. Podiam ser como as águas, que puxam pela terra e arrancam o lixo. Mas os anos nada fizeram. Ficou tudo com ele. Até o mais pequeno pormenor. Até o cheiro do cabelo. Até o cheiro dos pulsos. Tudo ficou com ele.
Havia noites em que fugia. Perdia-se nas pessoas e nas bebidas, nas músicas e nos países para onde viajava. Mas acabava sempre na mesma manhã, partisse de onde partisse, como se fosse devolvido, ou dalgum modo voltasse, ao lugar do crime, à cama onde a tinha morto. E via o rosto dela. Via o rosto dela. Estava sempre diante dele. Naquela manhã de Verão, no Sol absoluto; tão branco que parecia que nunca mais iria nascer.
Se tivesse sido noutra luz. Ou noutro dia. Se tivesse sido numa hora em que os olhos pudessem fechar-se contra o sol, sem doer e sem queimar. Se tivesse sido assim, ele já teria começado a esquecê-la. Teria começado a confundir certas coisas. Como o elástico com que prendia o cabelo. Como os cotovelos. O cheiro dos cotovelos.
Quando a matou, matou-a para ter paz. Estava farto de amar, de amor, de ser amado. Queria a tristeza das coisas do mundo, recuperar o hábito de se esquecer do coração, com o corpo dado aos dias, livre e calado, como os outros. Não queria mais ignorância do que havia e ia acontecer, mais intempérie nos sentidos, mais fantasias sem resposta, naquela sua alma incapaz de ouvir, incapaz de responder, incapaz de tudo menos de chamar.
Matou-a por pedido dela, para que ambos tivessem essa paz. «Não podes amar-me mais…», acusou ela. E ele dizia «Eu não podia amar-te mais…» E ela respondia, de cabeça a cair, «Pois, eu sei… mas eu precisava…» Era a única coisa nela que ele percebia. Ele também queria, também pedia, que ela o amasse mais.
«Amo-te tanto». Sempre essa palavra – tanto. E a pergunta ao outro, a quem parecia tão pouco: Mas quanto?
Agora ria-se desses dias e chorava. Se perguntava, perguntava por ela, estupidamente, ou por ele, por quando teria paz. Quando se esqueceria do que mais lhe doía lembrar? Os pormenores trazem sempre a maior mágoa. A grandeza, relembrada, como a felicidade, e o sonho e o amor, suporta-se por orgulho ou por compreensão, como uma saudade. Mas os pormenores, o conjunto das coisas que só estorvam, que nos azedam na alma, que nos saem do pensamento, não se conseguem perceber nem aceitar.
Ele lembrava-se do elástico com que prendia os cabelos e das flores vermelhas do vestido e da maneira de fumar e a vida parava-lhe no peito. Paralisava. Ficava em casa durante dias. De olhos abertos ou fechados, tanto fazia. Estava a olhar para ela. Não conseguia deixar. 
Até não poder mais. Até tudo cair à volta dele e ele ver que ela estava morta e ele vivo, e que parecia ser ao contrário, e que ele não podia absolvê-la mais.
Culpou-a. Lembrou-se das palavras com que disse: «Mata-me». Lembrou-se: «Mata-me. Deixa-te estar e mata-me, que eu quero morrer ao pé de ti». E lembrou-se das vezes, milhares de vezes, em que disse: «Mata-me, mata-me! Já não aguento amar-te mais!»
E então lembrou-se, pela primeira vez, que não tinha sido de manhã que a tinha morto. Não havia luz. Era mais que noite e tudo estava fechado. «Amo-te», disseram na escuridão, «Amo-te tanto…» Lembrou-se que não se via o rosto dela. Nem o cabelo. Nem um único pormenor. Lembrou-se.
Culpou-a de deixá-lo sozinho. Culpou-a de deixá-lo com ela. Culpou-a de deixá-lo sem paz. Culpou-a de deixá-lo tão apaixonado. Culpou-a de deixá-lo com vida – só com a vida suficiente para continuar a amá-la, da maneira como amava, mesmo depois de morta, cada vez mais.
Mas a culpa não pegou. A paz não veio. O coração, já velho, não sossegou. Lembrava-se de tudo e amava-a cada vez mais.
Mudou o dia, mudou a hora, mudou a luz. Convenceu-se de que a tinha morto não há nove anos, mas ontem. Não numa sala escura, mas numa varanda. De manhã, não de noite. Numa manhã tão clara – convenceu-se – que nunca mais poderia deixar de a ver. Mesmo se quisesse. 
E assim os anos passaram.

Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 12 de Março de 1993.
De Margarida Trindade no Grupo MEC (Ficheiros)

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