15/06/2013

Carta a Fernando Pessoa


 
 Meu caro Fernando
 É de lodo e nódoa este país que vejo
 Babado e sabujo gastando-te o nome
 
 Despudoradamente
 Remexem-te a arca acordando os silêncios
 De todos os teus versos outrora negados
 E não deixam mais que descanses em paz
 Os ossos cansados e essa tua cirrose
 Tão laboriosamente bebida e consentida
 
 Desnudam-te a alma, as cartas, os sonhos
 E os desesperos que sozinho viveste
 Nas sombrias paredes de humílimos quartos
 Dissecando as contas que nunca pagaste
 
 Ávidos de nome, e para darem nas vistas
 Rasgam-te as ceroulas que nunca despiste
 Para a tua Ofélia que amaste demais
 E outorgam-te paixões individualistas
 E homo-fatais
 
 E certos ratos de bibliotecas pardas
 Exauridos de raiva e de ciúme indispostos
 Quase negam as quadras grandiosas e simples
 Com que o povo te lembra, te soletra e canta
 (tu que foste poeta para todos os gostos)
 
 Sequiosos de fama, e de dinheiro famintos
 Masturbam discursos sobre o teu passado
 E esfregam-se nas praias do teu frágil corpo
 Curvado à angústia de tanto desprezo
 E à febre de um sonho etilizado
 
 E tudo isto, Fernando, por que nunca te amaram
 Nem compreenderam que no verso mais triste
 Escuro ou sombrio que te acontecia
 Palpitava inteira, universal e pura
 A razão de ser da poesia
 
 Por uma vez, agora, levanta-te Fernando
 Levanta-te do túmulo e vem cuspir-lhes na cara
 O teu sorriso inquieto, descomunal e mudo
 Mesmo doente e bêbado
 Esclerótico e tudo
 
 
 Fernando Campos de Castro
 (in livro VIOLAÇÃO DA NOITE)

Sem comentários:

Enviar um comentário