27/06/2013


 
 Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração impaciente. No
 corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem para a audácia.
 Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor impensável da água
 pura, o perfume do vazio, a descoberta por fazer, peregrinação
 dos olhos: contornos da luz, travessia de sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a como se perguntasse ao mar
 pelo outro lado de mim. Relação. Círculo. Divisão. Fogueira. O
 tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
 A casa recolhe os últimos fios de luz. Filtra-os, borboletas de voo
 suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o grande quadro da
 nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz, movendo-se. Do
 outro lado do vidro, chove, permanece chovendo. Sigo com o olhar
 uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no seu caminho de
 fulgor para a morte, mensagem de há cem milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos corredores do outono a água circula
 na memória. Nenhuma verdade é inteiramente verdade.
 
Joaquim Pessoa

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