Espero-a. Não consigo tocar em nada, o coração
impaciente. No
corpo da casa balanço o meu próprio corpo. Não
há, de facto, li-
mites, nem para a cobardia nem
para a audácia.
Deserto este, a casa. Deserto. Apenas o odor
impensável da água
pura, o perfume do vazio, a descoberta por
fazer, peregrinação
dos olhos: contornos da luz, travessia de
sombras, espécie de cis-
ne vogando na penumbra. Espero-a
como se perguntasse ao mar
pelo outro lado de mim. Relação. Círculo.
Divisão. Fogueira. O
tempo, o fóssil do futuro. Espero-a.
A casa recolhe os últimos fios de luz.
Filtra-os, borboletas de voo
suave. Fibras. Tranças. As paredes expõem o
grande quadro da
nudez e o silêncio vem ocupar o espaço da luz,
movendo-se. Do
outro lado do vidro, chove, permanece
chovendo. Sigo com o olhar
uma gota, esse monumento ínfimo da criação, no
seu caminho de
fulgor para a morte, mensagem de há cem
milhões de anos envia-
da ao coração. Pelos estreitos
corredores do outono a água circula
na memória. Nenhuma verdade é inteiramente
verdade.
Joaquim Pessoa


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