21/07/2013


 EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE


 Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro que um gato persa;
 Nesta Lisboa onde mansos e lisos
 os dias passam a ver as gaivotas,
 e a cor dos jacarandás floridos
 se mistura à do Tejo, em flor também,
 só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
 de passos ou aves, nem eu sei já bem.
 Só ele ajusta a luz feliz dos seus
 versos aos olhos ardidos que são
 os meus agora; só ele traz a sombra
 dum verão muito antigo, com corvetas
 lentas ainda no rio, e a música,
 o sumo do sol a escorrer da boca,
 ó minha infância, meu jardim fechado,
 ó meu poeta, talvez fosse contigo
 que aprendi a pesar sílaba a sílaba
 cada palavra, essas que tu levaste
 quase sempre, como poucos mais,
 à suprema perfeição da língua.

 Eugénio de Andrade (1923-2005)

 

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