15/07/2013


Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
 Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto -
Nesta localidade da cidade ...
 Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...

 Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...
 Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
 Sei eu o que é útil ou inútil?)...
 Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

 Tento reconstruir na minha imaginação
 Quem eu era e como era quando por aqui passava
 Há vinte anos...
 Não me lembro, não me posso lembrar.

 O outro que aqui passava, então,
 Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
 Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
 De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

 Sim, o mistério do tempo.
 Sim, o não se saber nada,
 Sim, o termos todos nascido a bordo
 Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

 Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
 Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
 lembradamente de azul.

 Hoje, se calhar, está o quê?
 Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
 Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada...

 Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
 Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
 Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
 Quando muito, nem penso...
 Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
 Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
 Olhamos indiferentemente um para o outro.
 E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
 E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.
 
 Talvez isso realmente se desse...
 Verdadeiramente se desse...
 Sim, carnalmente se desse...

 Sim, talvez...

 Alvaro De Campos

 

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