05/08/2013

Atreve-te a julgar


Atreve-te a julgar.
 Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
 A natureza das coisas é a tua natureza.
 Respira-te, despe-te,
 faz amor com as tuas convicções,
 não te limites a sorrir
 quando não sabes mais o que dizer.
 Os teus dentes
 estão lavados, as tuas mãos são amáveis
 mas falta-te
 decisão nos passos e firmeza nos gestos.
 Procura-te. Procura encontrar-te antes que
 te agarre a voracidade do tempo.
 Faz as coisas com paixão.
 Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
 e te faça doer a respiração.
 Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
 nem um cêntimo pagarás por ele.
 Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
 Canta.
 Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
 e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
 o trabalho doce da abelha e a paciência
 com que crescem as árvores,
 canta cada momento que partilhas com amigos,
 e cada amigo
 como um astro que desponta
 no firmamento breve do teu corpo.
 E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
 E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
 Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir

 felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados

 e os séculos vindouros
 muito do pó que sacodes já foi vida,
 talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
 A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
 o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou
 Canta!
 Se sentires medo, canta.
 Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
 Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
 Constrói o teu amor, vive o teu amor,
 ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
 o que mais querem é o amor.
 Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
ada será igual alguma vez.

 Canta. Enquanto esperas, canta.
 Canta quando não quiseres esperar.
 Canta se não encontrares mais esperança.
 E canta quando a esperança te encontrar.
 Canta porque te apetece cantar e
 porque gostas de cantar e
 porque sentes que é preciso cantar.
 E canta quando já não for preciso.
 Canta porque és livre.
 E canta se te falta a liberdade. 

Joaquim Pessoa. Vou-me embora de mim. Hugin. 2000.

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