16/08/2013


 
Ora pois, foi tal e qual como vos digo:
 Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim
 - Ou ela, ou eu!
 E ficou resolvido que no dia doze
 Minha Mãe parisse,
 E pariu!
 
 Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
 Como se fosse um feito glorioso
 Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
 Por mim,
 Ainda disse que não.
 Mas o seu anjo da guarda
 Era forte e tenebroso…
E aquele frágil cordão
 Deixou de ser o meu pão,
 O meu vinho
 E a paz eterna do meu coração
 Mesquinho.
 
 Deixou de ser o silêncio
 Delicado e agradecido
 Dos meus instintos menores…
Deixou de ser o norte daquele lago
 Onde dormia o meu corpo
 Sem alegria e sem dores.
 
 Deixou de ser aquela verdadeira
 E sagrada ignorância do meu nome.
 Que Satanás me disse, quando disse:
 - Respira e come,
 Respira e come,
 ANIMAL!
 (A voz de Satanás já nesse tempo
 Era humana e natural!...)
 
 Deixou de ser um mundo e foi um outro.
 Foi a inocência perdida
 E a minha voz acordada…
Foi a fome, a peste e a guerra.
 Foi a terra
 Sem mais nada.
 
 Depois,
 Sem dó nem piedade a vida começou…
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
 E, ao ver que eu era homem,
 Corou…
 
Miguel Torga

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