04/08/2013

Vida...



 

 sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
 cujos passos são horas
 cadenciadas
 rítmicas
 fatais.
 A cada movimento do teu corpo
 dispersam asas de desejos
que me roçam a pele

e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais

Vou seguindo teus passos
 lutando e sofrendo
 cantando e chorando
 e ficam abertos meus braços:
 nunca te alcanço!
 Meu suplício de Tântalo.
 Envelheço...
 E tu, Vida, cada vez mais viçosa
 na oscilação nervosa
 das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
 À punhalada dilacero a folhagem
 e abro clareiras
 na floresta milenária do meu caminho.
 Humildemente se rasga e avilta
 no roçar dos espinhos
 minha carne dorida.
 E quando julgo chegada a hora
 meu abraço de posse fica escancarado no ar!
 Olímpica
 firme
 gloriosa
 tu passas e não te alcanço, Vida.
 Caio suado de borco
 no lodo...
 O vento da noite badala nos ramos
 sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
 Tenho medo, grito.
 Creio em Deus e nos fantásticos ecos
 do meu grito
 que vêm de longe e de perto
 do sul e do norte
 que me envolvem
 e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
 antes o deserto, a sede e a morte!

Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos"

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