21/09/2013

Ai, Margarida


 

 

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo, 
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer
 
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.
1-10-1927

Álvaro de Campos

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