25/04/2013


 

ODE A FERNANDO PESSOA


 Tu que tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
 tu foste de verdade a voz de Portugal
 e não foste tu!
 Foste de verdade, não de feito, a voz de Portugal.
 De verdade e de feito só não foste tu.
 A Portugal, a voz vem-lhe sempre depois da idade
 e tu quiseste acertar-lhe a voz com a idade
 e aqui erraste tu,
 não a tua voz de Portugal
 não a idade que já era de hoje.
 Tu foste apenas o teu sonho de ser a voz de Portugal
 o teu sonho de ti
 o teu sonho dos portugueses
 só sonhado por ti.
Tu sonhaste a continuação do sonho português

 somos todos os séculos de Portugal

 somados todos os vários sonhos portugueses
 tu sonhaste a decifração final
 do sonho de Portuga
 e a vida que desperta depois do sonho
 a vida que o sonho predisse.
 Tu tiveste o sonho de ser a voz de Portugal
 tu foste de verdade a voz de Portugal
 e não foste tu!
 Tu ficaste para depois
 E Portugal também.
 Tu levaste empunhada no teu sonho a bandeira de Portugal
 vertical
 sem pender para nenhum lado
 o que não é dado pra portugueses.
 Ninguém viu em ti, Fernando,
 senão a pessoa que leva uma bandeira
 e sem a justificação de ter havido festa.
 Nesta nossa querida terra onde ninguém a ninguém admira
 e todos a determinados idolatram.
 Foi substituído Portugal pelo nacionalismo
 que é maneira de acabar com partidos
 e de ficar talvez o partido de Portugal
 mas não ainda apenas Portugal!
 Portugal fica para depois
 e os portugueses também
 como tu.
 
 José de Almada Negreiros

17/04/2013

Todas as vidas gastei

Todas as vidas gastei
para morrer contigo.

E agora
esfumou-se o tempo
e perdi o teu passo
... para além da curva do rio.

Rasguei as cartas.
Em vão: o papel restou intacto.
Só meus dedos murcharam, decepados.

Queimei as fotos.
Em vão: as imagens restaram incólumes
e só meus olhos
se desfizeram, redondas cinzas.

Com que roupa
vestirei minha alma
agora que já não há domingos?

Quero morrer, não consigo.
Depois de te viver
não há poente
nem o enfim de um fim.
Todas as mortes gastei
para viver contigo.
Mia Couto

12/04/2013

?


Diga-se da rapariga que era incessantemente perseguida. Pequena, mas sem haver mais perfeita, nem mais linda. Diga-se que se encontrava há anos e anos apaixonada por alguém, que a amava com coração limpo, tremendo quando a via, mas sem lhe mentir e sem se calar, por tratar-se dum homem direito, com uma alma muito boa.
Diga-se dela o que disser, que acabará, um dia, por ser verdade.
Nem ela fazia ideia do que fazia. Quando falava parecia mensageira de si própria. Empertigava-se como se fosse porta-voz, de pernas compridas e palavras curtas, como se estivesse a dar um recado que não lhe apetecia dar.
Diga-se que não era fácil uma pessoa não se apaixonar, não dar a vida por ela. O amor era a coisa que menos a impressionava. Deixava qualquer pessoa amá-la. O que ela queria, diga-se em abono dela, era mais ser aceite que ser amada. Amar é uma espécie de preguiça que toma conta da nossa alma. Dispensa razões. Desculpa atitudes. Permite quase tudo.
E, no entanto, diga-se que muitos a aceitaram antes de amá-la. No meu caso, que era vulgar, dum homem a quem só aconteceu o que estava previsto, tornei-me amigo dela e tratei-a como um homem, por dois ou três dias - os mais felizes da minha vida - antes de me despedir daquele dia-a-dia, de palavras faladas por quem não costuma dizer nada - antes de me perder, de cair-lhe no coração como mais uma gota de sangue.
Como tantos outros, apaixonei-me e ela afastou-se, triste por ter trocado por simples amor os trabalhos difíceis da nossa amizade.
«Porque é que não tenho amigos? Porque é que todos vocês se apaixonam sempre por mim?»
Era uma falta de respeito. Até eu percebia isso. Era a mulher mais sozinha que eu conhecia.
Doida, mas dedicada, como se pertencesse às pessoas que a preocupavam.
«O que é que hei-de fazer contigo» Estava sempre a fazer esta pergunta.
Eu respondia sempre: «Casa comigo.» Salva um suicídio. Dá esperança a uma geração. Cospe na cara da lógica. Confunde os peritos. Dá uma abébia aos bisbilhoteiros.
«Casa comigo.» Vai contra o teu marido. Caga nos desígnios de Deus.
Diga-se que não casou - nem pouco mais ou menos. Com ninguém - valha-nos isso. Deu colo a quem chorava por ela, nem que fosse só um bocadinho. Milhares de cabeças repousaram assim.
«Não fiques triste», dizia a rapariga. Tradução:«Não estás sozinho». Se alguém insistia, ela perdia a paciência. Ou recuperava-a. Dependia. Dependia do homem de ontem, da expectativa do dia seguinte…
«Casa com alguém!», disse-lhe eu por fim. «Com esse a quem tu amas», acrescentei. «Esse!», respondeu tristemente. «Ou com esse que acreditas ser quem te ama mais!». «Esse!», respondeu a rir.
A verdade é que nunca percebi porque é que não casou comigo. Amava mais o outro, mas dava-se melhor comigo. Dava-se melhor com uns outros, mas gostava mais um bocadinho de mim. «Gostava tanto de amar-te», dizia, meio-arrependida, sem convencer um único centavo de mim. «mas o meu problema é gostar tanto de ti…»

Comecei a odiá-la. Continuei a amá-la só porque era uma coisa em que não podia interferir. Desde o dia em que abrimos os olhos e vemos o rosto da nossa mãe, acho que o coração, por assim dizer, deixa de nos pertencer. É um chato que nos comove. É um traidor. É um independente. É um inquilino.
Diga-se que a rapariga, quando fugi dela, me telefonou duas vezes, a dizer que tinha saudades de mim.
«Saudades.» Quero um tostão por cada vez que esta palavra é profanada.
Saudades tenho eu dela. Se calhar, tão fortes que nem sequer são no plural.
Procurei os outros como eu e tornei-me amigo deles.
Nunca ninguém teve coragem de dizer «Amo-a». Mas era a única coisa que nos unia. «Viste-a?». «Eu vi-a no outro dia.» «Como é que ela estava? Nenhum de nós respondia. A resposta era óbvia. Estava feliz. Feliz! Como é que ela podia?
Diga-se que foi finalmente apanhada. Um homem houve, vindo dos seus tempos antigos, que a apanhou. Mas eu duvido. Quanto a mim, foi ela que se rendeu. Tenho para mim que mulher nenhuma, por muito amada, é suficientemente perseguida. Prefere que um homem a persiga por mil quilómetros e mil dias que mil homens a persigam durante um ano, pela mesma avenida acima. 
Para mais - diga-se - era isso que me está na natureza, que é fascinada e teimosa, capaz de se matar sem reparar que no momento anterior à morte estava viva - era isso mesmo que eu queria. Não é pena?
Casou com outro. Eu também. Ambos nos divorciámos no dia seguinte. Agora temos amantes diferentes e mal nos falamos. «Amo-te, estúpida!», gritei-lhe no outro dia. E ela quase chorou: «Lá estúpida, sou…»
Antes de se ir embora, agarrou-me o braço e disse:
«Sempre gostei muito de ti…»
Não é coisa que se faça, diga-se. Atendendo a como a amo, é inadmissível - nunca mais me telefonou e eu nunca mais a vi.
Esteve casada quatro dias. Todos os dias vejo o ex-marido, drogado e velho, entregue ao seu destino. Dizem que vai morrer um dia destes. Mas é a única pessoa que eu, em toda a minha vida, invejo.
«Sabes lá do que te safaste!» - era sempre o que ele me dizia. «Tu és rico e feliz - tens namoradas lindas e amigos que nunca mais acabam…» Comprava-lhe um whisky para poder invejá-lo ao pé de mim. Teria até sido amigo dele se ele não acabasse sempre as nossas curtas conversas com a frase: «Ela gostava muito de ti»
Diga-se, em abono da verdade e da minha miséria, que tudo indica que sim.
Gostava, sim senhor. Eu, que tudo fiz para que ela me amasse - as maiores maldades, as piores traições, os estratagemas mais rascas - de forma tão cruel, persistente e sistemática que só um monstro podia passar por cima disso tudo e continuar a gostar de mim.
Diga-se, por amor à verdade e verdade no amor, que deixei de gostar dela por causa disso.
Amo-a, claro. Ainda hoje. Mas mais nada.

Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 7 de Maio de 1993
(Doc. Criado por Margarida Trindade no grupo MEC)

DESENCANTO EM FUNÇÃO DA POSSE


Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. Os meus próprios raros entusiasmos, se me lembro deles, logo se me esvaem - pois, ao medi-los, encontro- os tão mesquinhos, tão de pacotilha… Quer saber? Outrora, à noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos, entressonhando a glória, o amor, os êxtases… Mas hoje já não sei com que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores… eles próprios me fartaram: são sempre os mesmos - e é impossível achar outros… Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo - aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio.

 

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

08/04/2013

Vamos ser velhos....


 

Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha

sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.

Maria do Rosário Pedreira

06/04/2013

?


«...Levantava-se de noite deambulando às escuras pela casa, tornando ainda mais negra a sua alma. E como se a casa respira-se, ouvia os seus suspiros e o seu choro abafado, enquanto bolçava os seus fantasmas pelos olhos tristes.

Nunca soube o que o queimava por dentro. Fiquei entaipada nos meus próprios silêncios, espelhando a sua dor no meu próprio corpo. Nunca chorámos os dois juntos. Nunca tivemos essa intimidade. O meu choro transbordava a norte, quando as suas lágrimas se derramavam a sul...»

In: Diário dos Infiéis
João Morgado *