31/05/2013


Diga-se da rapariga que era incessantemente perseguida. Pequena, mas sem haver mais perfeita, nem mais linda. Diga-se que se encontrava há anos e anos apaixonada por alguém, que a amava com coração limpo, tremendo quando a via, mas sem lhe mentir e sem se calar, por tratar-se dum homem direito, com uma alma muito boa.
 Diga-se dela o que disser, que acabará, um dia, por ser verdade.
 Nem ela fazia ideia do que fazia. Quando falava parecia mensageira de si própria. Empertigava-se como se fosse porta-voz, de pernas compridas e palavras curtas, como se estivesse a dar um recado que não lhe apetecia dar.
 Diga-se que não era fácil uma pessoa não se apaixonar, não dar a vida por ela. O amor era a coisa que menos a impressionava. Deixava qualquer pessoa amá-la. O que ela queria, diga-se em abono dela, era mais ser aceite que ser amada. Amar é uma espécie de preguiça que toma conta da nossa alma. Dispensa razões. Desculpa atitudes. Permite quase tudo.
 E, no entanto, diga-se que muitos a aceitaram antes de amá-la. No meu caso, que era vulgar, dum homem a quem só aconteceu o que estava previsto, tornei-me amigo dela e tratei-a como um homem, por dois ou três dias - os mais felizes da minha vida - antes de me despedir daquele dia-a-dia, de palavras faladas por quem não costuma dizer nada - antes de me perder, de cair-lhe no coração como mais uma gota de sangue.
 Como tantos outros, apaixonei-me e ela afastou-se, triste por ter trocado por simples amor os trabalhos difíceis da nossa amizade.
«Porque é que não tenho amigos? Porque é que todos vocês se apaixonam sempre por mim?»
Era uma falta de respeito. Até eu percebia isso. Era a mulher mais sozinha que eu conhecia.
 Doida, mas dedicada, como se pertencesse às pessoas que a preocupavam.
«O que é que hei-de fazer contigo» Estava sempre a fazer esta pergunta.
 Eu respondia sempre: «Casa comigo.» Salva um suicídio. Dá esperança a uma geração. Cospe na cara da lógica. Confunde os peritos. Dá uma abébia aos bisbilhoteiros.«Casa comigo.» Vai contra o teu marido. Caga nos desígnios de Deus.
 Diga-se que não casou - nem pouco mais ou menos. Com ninguém - valha-nos isso. Deu colo a quem chorava por ela, nem que fosse só um bocadinho. Milhares de cabeças repousaram assim.

«Não fiques triste», dizia a rapariga. Tradução:«Não estás sozinho». Se alguém insistia, ela perdia a paciência. Ou recuperava-a. Dependia. Dependia do homem de ontem, da expectativa do dia seguinte…
«Casa com alguém!», disse-lhe eu por fim. «Com esse a quem tu amas», acrescentei. «Esse!», respondeu tristemente. «Ou com esse que acreditas ser quem te ama mais!». «Esse!», respondeu a rir.
 A verdade é que nunca percebi porque é que não casou comigo. Amava mais o outro, mas dava-se melhor comigo. Dava-se melhor com uns outros, mas gostava mais um bocadinho de mim. «Gostava tanto de amar-te», dizia, meio-arrependida, sem convencer um único centavo de mim. «mas o meu problema é gostar tanto de ti…»
Comecei a odiá-la. Continuei a amá-la só porque era uma coisa em que não podia interferir. Desde o dia em que abrimos os olhos e vemos o rosto da nossa mãe, acho que o coração, por assim dizer, deixa de nos pertencer. É um chato que nos comove. É um traidor. É um independente. É um inquilino.
 Diga-se que a rapariga, quando fugi dela, me telefonou duas vezes, a dizer que tinha saudades de mim.
«Saudades.» Quero um tostão por cada vez que esta palavra é profanada.
 Saudades tenho eu dela. Se calhar, tão fortes que nem sequer são no plural.
 Procurei os outros como eu e tornei-me amigo deles.
 Nunca ninguém teve coragem de dizer «Amo-a». Mas era a única coisa que nos unia. «Viste-a?». «Eu vi-a no outro dia.» «Como é que ela estava? Nenhum de nós respondia. A resposta era óbvia. Estava feliz. Feliz! Como é que ela podia?
 Diga-se que foi finalmente apanhada. Um homem houve, vindo dos seus tempos antigos, que a apanhou. Mas eu duvido. Quanto a mim, foi ela que se rendeu. Tenho para mim que mulher nenhuma, por muito amada, é suficientemente perseguida. Prefere que um homem a persiga por mil quilómetros e mil dias que mil homens a persigam durante um ano, pela mesma avenida acima.

 Para mais - diga-se - era isso que me está na natureza, que é fascinada e teimosa, capaz de se matar sem reparar que no momento anterior à morte estava viva - era isso mesmo que eu queria. Não é pena?
 Casou com outro. Eu também. Ambos nos divorciámos no dia seguinte. Agora temos amantes diferentes e mal nos falamos. «Amo-te, estúpida!», gritei-lhe no outro dia. E ela quase chorou: «Lá estúpida, sou…»
Antes de se ir embora, agarrou-me o braço e disse:
«Sempre gostei muito de ti…»
Não é coisa que se faça, diga-se. Atendendo a como a amo, é inadmissível - nunca mais me telefonou e eu nunca mais a vi.
 Esteve casada quatro dias. Todos os dias vejo o ex-marido, drogado e velho, entregue ao seu destino. Dizem que vai morrer um dia destes. Mas é a única pessoa que eu, em toda a minha vida, invejo.
«Sabes lá do que te safaste!» - era sempre o que ele me dizia. «Tu és rico e feliz - tens namoradas lindas e amigos que nunca mais acabam…» Comprava-lhe um whisky para poder invejá-lo ao pé de mim. Teria até sido amigo dele se ele não acabasse sempre as nossas curtas conversas com a frase: «Ela gostava muito de ti…»
Diga-se, em abono da verdade e da minha miséria, que tudo indica que sim.
 Gostava, sim senhor. Eu, que tudo fiz para que ela me amasse - as maiores maldades, as piores traições, os estratagemas mais rascas - de forma tão cruel, persistente e sistemática que só um monstro podia passar por cima disso tudo e continuar a gostar de mim.
 Diga-se, por amor à verdade e verdade no amor, que deixei de gostar dela por causa disso.
 Amo-a, claro. Ainda hoje. Mas mais nada.
 Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 7 de Maio de 1993.
 (Doc. Criado por Margarida Trindade no grupo

27/05/2013


Matou-a numa manhã tão clara que nunca mais deixou de a ver.
Os anos passaram. Mas nada levavam com eles. Podiam ser como as águas, que puxam pela terra e arrancam o lixo. Mas os anos nada fizeram. Ficou tudo com ele. Até o mais pequeno pormenor. Até o cheiro do cabelo. Até o cheiro dos pulsos. Tudo ficou com ele.
Havia noites em que fugia. Perdia-se nas pessoas e nas bebidas, nas músicas e nos países para onde viajava. Mas acabava sempre na mesma manhã, partisse de onde partisse, como se fosse devolvido, ou dalgum modo voltasse, ao lugar do crime, à cama onde a tinha morto. E via o rosto dela. Via o rosto dela. Estava sempre diante dele. Naquela manhã de Verão, no Sol absoluto; tão branco que parecia que nunca mais iria nascer.
Se tivesse sido noutra luz. Ou noutro dia. Se tivesse sido numa hora em que os olhos pudessem fechar-se contra o sol, sem doer e sem queimar. Se tivesse sido assim, ele já teria começado a esquecê-la. Teria começado a confundir certas coisas. Como o elástico com que prendia o cabelo. Como os cotovelos. O cheiro dos cotovelos.
Quando a matou, matou-a para ter paz. Estava farto de amar, de amor, de ser amado. Queria a tristeza das coisas do mundo, recuperar o hábito de se esquecer do coração, com o corpo dado aos dias, livre e calado, como os outros. Não queria mais ignorância do que havia e ia acontecer, mais intempérie nos sentidos, mais fantasias sem resposta, naquela sua alma incapaz de ouvir, incapaz de responder, incapaz de tudo menos de chamar.
Matou-a por pedido dela, para que ambos tivessem essa paz. «Não podes amar-me mais…», acusou ela. E ele dizia «Eu não podia amar-te mais…» E ela respondia, de cabeça a cair, «Pois, eu sei… mas eu precisava…» Era a única coisa nela que ele percebia. Ele também queria, também pedia, que ela o amasse mais.
«Amo-te tanto». Sempre essa palavra – tanto. E a pergunta ao outro, a quem parecia tão pouco: Mas quanto?
Agora ria-se desses dias e chorava. Se perguntava, perguntava por ela, estupidamente, ou por ele, por quando teria paz. Quando se esqueceria do que mais lhe doía lembrar? Os pormenores trazem sempre a maior mágoa. A grandeza, relembrada, como a felicidade, e o sonho e o amor, suporta-se por orgulho ou por compreensão, como uma saudade. Mas os pormenores, o conjunto das coisas que só estorvam, que nos azedam na alma, que nos saem do pensamento, não se conseguem perceber nem aceitar.
Ele lembrava-se do elástico com que prendia os cabelos e das flores vermelhas do vestido e da maneira de fumar e a vida parava-lhe no peito. Paralisava. Ficava em casa durante dias. De olhos abertos ou fechados, tanto fazia. Estava a olhar para ela. Não conseguia deixar. 
Até não poder mais. Até tudo cair à volta dele e ele ver que ela estava morta e ele vivo, e que parecia ser ao contrário, e que ele não podia absolvê-la mais.
Culpou-a. Lembrou-se das palavras com que disse: «Mata-me». Lembrou-se: «Mata-me. Deixa-te estar e mata-me, que eu quero morrer ao pé de ti». E lembrou-se das vezes, milhares de vezes, em que disse: «Mata-me, mata-me! Já não aguento amar-te mais!»
E então lembrou-se, pela primeira vez, que não tinha sido de manhã que a tinha morto. Não havia luz. Era mais que noite e tudo estava fechado. «Amo-te», disseram na escuridão, «Amo-te tanto…» Lembrou-se que não se via o rosto dela. Nem o cabelo. Nem um único pormenor. Lembrou-se.
Culpou-a de deixá-lo sozinho. Culpou-a de deixá-lo com ela. Culpou-a de deixá-lo sem paz. Culpou-a de deixá-lo tão apaixonado. Culpou-a de deixá-lo com vida – só com a vida suficiente para continuar a amá-la, da maneira como amava, mesmo depois de morta, cada vez mais.
Mas a culpa não pegou. A paz não veio. O coração, já velho, não sossegou. Lembrava-se de tudo e amava-a cada vez mais.
Mudou o dia, mudou a hora, mudou a luz. Convenceu-se de que a tinha morto não há nove anos, mas ontem. Não numa sala escura, mas numa varanda. De manhã, não de noite. Numa manhã tão clara – convenceu-se – que nunca mais poderia deixar de a ver. Mesmo se quisesse. 
E assim os anos passaram.

Miguel Esteves Cardoso, n'O Independente, 12 de Março de 1993.
De Margarida Trindade no Grupo MEC (Ficheiros)

21/05/2013


 Sim, foi por mim que gritei.
 Declamei,
 Atirei frases em volta.
 Cego de angústia e de revolta.

 Foi em meu nome que fiz,
 A carvão, a sangue, a giz,
 Sátiras e epigramas nas paredes
 Que não vi serem necessárias e vós vedes.

 Foi quando compreendi
 Que nada me dariam do infinito que pedi,
 -Que ergui mais alto o meu grito
 E pedi mais infinito!

 Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
 Eis a razão das épi trági-cómicas empresas
 Que, sem rumo,
 Levantei com sarcasmo, sonho, fumo...

 O que buscava
 Era, como qualquer, ter o que desejava.
 Febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
 Tinham raízes banalíssimas de egoísmo.

 Que só por me ser vedado
 Sair deste meu ser formal e condenado,
 Erigi contra os céus o meu imenso Engano
 De tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!

 Senhor meu Deus em que não creio!
 Nu a teus pés, abro o meu seio
 Procurei fugir de mim,
 Mas sei que sou meu exclusivo fim.

 Sofro, assim, pelo que sou,
 Sofro por este chão que aos pés se me pegou,
 Sofro por não poder fugir.
 Sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!

 Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
 (Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
 Senhor dá-me o poder de estar calado,
 Quieto, maniatado, iluminado.

 Se os gestos e as palavras que sonhei,
 Nunca os usei nem usarei,
 Se nada do que levo a efeito vale,
 Que eu me não mova! que eu não fale!

 Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
 Era por um de nós. E assim,
 Neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
 Lutava um homem pela humanidade.

 Mas o meu sonho megalómano é maior
 Do que a própria imensa dor
 De compreender como é egoísta
 A minha máxima conquista...

 Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
 Me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
 E o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
 E sobre mim de novo descerá...

 Sim, descerá da tua mão compadecida,
 Meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
E uma terra sem flor e uma pedra sem nome
 Saciarão a minha fome.

José Régio

 

11/05/2013

MUDANÇA DE IDADE

Para explicar
os excessos do meu irmão
a minha mãe dizia:
está na mudança de idade.
Na altura,
eu não tinha idade nenhuma
e o tempo era todo meu.
... Despontavam borbulhas
no rosto do meu irmão,
eu morria de inveja
enquanto me perguntava:
em que idade a idade muda?
Que vida,
escondida de mim, vivia ele?
Em que adiantada estação
o tempo lhe vinha comer à mão?
Na espera de recompensa,
eu à lua pedia uma outra idade.
Respondiam-me batuques
mas vinham de longe,
de onde já não chega o luar.
Antes de dormirmos
a mãe vinha esticar os lençóis
que era um modo
de beijar o nosso sono.
Meu anjo, não durmas triste, pedia.
E eu não sabia
se era comigo que ela falava.
A tristeza, dizia,
é uma doença envergonhada.
Não aprendas a gostar dessa doença.
As suas palavras
soavam mais longe
que os tambores nocturnos.
O que invejas, falava a mãe, não é a idade.
É a vida
para além do sonho.
Idades mudaram-me,
calaram-se tambores,
na lua se anichou a materna voz.
E eu já nada reclamo.
Agora sei:
apenas o amor nos rouba o tempo.
E ainda hoje
estico os lençóis
antes de adormecer.

MIA COUTO
No livro "Tradutor de chuvas"
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