27/07/2013

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Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.
 
Nuno Júdice

21/07/2013


 EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE


 Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro que um gato persa;
 Nesta Lisboa onde mansos e lisos
 os dias passam a ver as gaivotas,
 e a cor dos jacarandás floridos
 se mistura à do Tejo, em flor também,
 só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
 de passos ou aves, nem eu sei já bem.
 Só ele ajusta a luz feliz dos seus
 versos aos olhos ardidos que são
 os meus agora; só ele traz a sombra
 dum verão muito antigo, com corvetas
 lentas ainda no rio, e a música,
 o sumo do sol a escorrer da boca,
 ó minha infância, meu jardim fechado,
 ó meu poeta, talvez fosse contigo
 que aprendi a pesar sílaba a sílaba
 cada palavra, essas que tu levaste
 quase sempre, como poucos mais,
 à suprema perfeição da língua.

 Eugénio de Andrade (1923-2005)

 

15/07/2013


Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...
 Nada está mudado - ou, pelo menos, não dou por isto -
Nesta localidade da cidade ...
 Há vinte anos!...
O que eu era então! Ora, era outro...

 Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...
 Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!
 Sei eu o que é útil ou inútil?)...
 Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)

 Tento reconstruir na minha imaginação
 Quem eu era e como era quando por aqui passava
 Há vinte anos...
 Não me lembro, não me posso lembrar.

 O outro que aqui passava, então,
 Se existisse hoje, talvez se lembrasse...
 Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro
 De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!

 Sim, o mistério do tempo.
 Sim, o não se saber nada,
 Sim, o termos todos nascido a bordo
 Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...

 Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,
 Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu, mais
 lembradamente de azul.

 Hoje, se calhar, está o quê?
 Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.
 Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada...

 Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,
 Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,
 Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.
 Quando muito, nem penso...
 Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,
 Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.
 Olhamos indiferentemente um para o outro.
 E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,
 E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.
 
 Talvez isso realmente se desse...
 Verdadeiramente se desse...
 Sim, carnalmente se desse...

 Sim, talvez...

 Alvaro De Campos

 

10/07/2013


Não me peçam razões, que não as tenho,
 Ou darei quantas queiram: bem sabemos
 Que razões são palavras, todas nascem
 Da mansa hipocrisia que aprendemos.

 Não me peçam razões por que se entenda
 A força de maré que me enche o peito,
 Este estar mal no mundo e nesta lei:
 Não fiz a lei e o mundo não aceito.

 Não me peçam razões, ou que as desculpe,
 Deste modo de amar e destruir:
 Quando a noite é de mais é que amanhece
 A cor de primavera que há-de vir.


 José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

"Daqui a 50 anos eu ainda vou saber o teu nome, lembrar todas as vezes que me fizeste sorrir. Na minha memória, tão congestionada e no meu coração, tão cheio de marcas e poços, ocupas um dos lugares mais bonitos".

 

 Caio Fernando Abreu

09/07/2013

O Amor, Meu Amor
 Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
... as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

Mia Couto