27/08/2013

Destino



 à ternura pouca
 me vou acostumando
 enquanto me adio
 servente de danos e enganos
 vou perdendo morada
 na súbita lentidão
 de um destino
 que me vai sendo escasso
 conheço a minha morte
 seu lugar esquivo
 seu acontecer disperso
 agora
 que mais
 me poderei vencer? 

Mia Couto 

25/08/2013

Chamar-te meu amor...



 Dizer que tudo em ti é movimento
 e que há corças nas selvas em redor
 do amor que às vezes faço em pensamento
 ou do que eu penso quando faço amor.

 Dizer que em tudo escuto a tua voz
 no mar no vento na boca das searas
 o maior amor do mundo somos nós
 cobrindo a solidão de pedras raras.

 Dizer tudo o que eu digo nunca basta
 pois para ti não chegam as palavras
 "meu amor" é uma expressão que já está gasta
 mas tem sempre um aroma de ervas bravas.

 É por ti tudo o que faço e digo e chamo
 por ti eu tudo invento e tudo esqueço
 dou tudo o que há em mim quando te amo
 mas nem sei meu amor se te conheço.

Joaquim Pessoa
foto desconheço Autor

23/08/2013

?


 
 
Não: devagar.
 Devagar, porque não sei
 Onde quero ir.
 Há entre mim e os meus passos
 Uma divergência instintiva.
 Há entre quem sou e estou
 Uma diferença de verbo
 Que corresponde à realidade.
 
 Devagar...
 Sim, devagar...
 Quero pensar no que quer dizer
 Este devagar...
 Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
 Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
 Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
 
 Talvez isso tudo...
 Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
 O que é que tem que ser devagar?
 Se calhar é o universo...
 A verdade manda Deus que se diga.
 Mas ouviu alguém isso a Deus?
 
 Álvaro de Campos

22/08/2013

?


A estrada está deserta.
Vou caminhando sozinha.
Ninguém me espera no caminho.
Ninguém acende a luz.
A velha candeia de azeite
de há muito se apagou....

Tudo deserto.
A longa caminhada.
A longa noite escura.
Ninguém me estende a mão.
E as mãos atiram pedras.
Sozinha...

Errada a estrada.
No frio, no escuro, no abandono.
Tateio em volta e procuro a luz.
Meus olhos estão fechados.
Meus olhos estão cegos.
Vêm do passado.

Num bramido de dor.
Num espasmo de agonia
Ouço um vagido de criança.
É meu filho que acaba de nascer.

Sozinha...
Na estrada deserta,
Sempre a procurar
o perdido tempo que ficou pra trás.

Do perdido tempo.
Do passado tempo
escuto a voz das pedras:

Volta...Volta...Volta...
E os morros abriam para mim
Imensos braços vegetais.

E os sinos das igrejas
Que ouvia na distância
Diziam: Vem... Vem... Vem...

E as rolinhas fogo-pagou
Das velhas cumeeiras:
Porque não voltou...
Porque não voltou...
E a água do rio que corria
Chamava...chamava...

Vestida de cabelos brancos
Voltei sozinha à velha casa deserta.

Cora Coralina

21/08/2013


 

“Se por um instante Deus se esquecesse que sou uma marioneta de trapo e me oferecesse mais um pouco de vida, não diria tudo o que penso, mas pensaria tudo o que digo.

 Daria valor às coisas não pelo que valem, mas pelo que significam.

 Dormiria pouco, sonharia mais.

 Entendo que por cada minuto que fechamos os olhos, perdemos 60 segundos de luz.

 Andaria quando os outros páram, acordaria quando os outros dormem.

 Ouviria quando os outros falam e como desfrutaria de um bom gelado de chocolate…

 Se Deus me oferecesse um pouco de vida, vestir-me-ia de forma simples, deixando a descoberto não apenas o meu corpo, mas também a minha alma.

 Meu Deus, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre gelo e esperava que nascesse o sol.

 Pintaria com um sonho de Van Gogh as estrelas de um poema de Benedetti, e uma canção de Serrat seria a serenata que oferecia à Lua.

 Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos seus espinhos e o beijo encarnado das suas pétalas…

 Meu Deus, se eu tivesse um pouco mais de vida, não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas de quem gosto que gosto delas.

 Convenceria cada mulher ou homem que é o meu favorito e viveria apaixonado pelo Amor.

 Aos Homens, provar-lhes-ia como estão equivocados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saberem que envelhecem quando deixam de se apaixonar.

 A uma criança dar-lhe-ia asas, mas teria de aprender a voar sozinha.

 Aos velhos, ensinar-lhes-ia que a morte não chega com a velhice, mas sim com o esquecimento.

 Tantas coisas aprendi com vocês Homens…

 Aprendi que todo o mundo quer viver em cima de uma montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a encosta.

 Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão, pela 1ª vez, o dedo de seu pai, o tem agarrado para sempre.

 Aprendi que um Homem só tem direito a olhar outro de cima para baixo quando vai ajudá-lo a levantar-se.

 São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas não me hão-de servir realmente de muito, porque quando me guardarem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer…”

 
Gabriel Garcia Marquez

16/08/2013


 
Ora pois, foi tal e qual como vos digo:
 Minha Mãe, certo dia, pôs a questão assim
 - Ou ela, ou eu!
 E ficou resolvido que no dia doze
 Minha Mãe parisse,
 E pariu!
 
 Pariu e ninguém se opôs! Ninguém!
 Como se fosse um feito glorioso
 Parir assim alguém, tão nu, tão desgraçado!
 Por mim,
 Ainda disse que não.
 Mas o seu anjo da guarda
 Era forte e tenebroso…
E aquele frágil cordão
 Deixou de ser o meu pão,
 O meu vinho
 E a paz eterna do meu coração
 Mesquinho.
 
 Deixou de ser o silêncio
 Delicado e agradecido
 Dos meus instintos menores…
Deixou de ser o norte daquele lago
 Onde dormia o meu corpo
 Sem alegria e sem dores.
 
 Deixou de ser aquela verdadeira
 E sagrada ignorância do meu nome.
 Que Satanás me disse, quando disse:
 - Respira e come,
 Respira e come,
 ANIMAL!
 (A voz de Satanás já nesse tempo
 Era humana e natural!...)
 
 Deixou de ser um mundo e foi um outro.
 Foi a inocência perdida
 E a minha voz acordada…
Foi a fome, a peste e a guerra.
 Foi a terra
 Sem mais nada.
 
 Depois,
 Sem dó nem piedade a vida começou…
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
 E, ao ver que eu era homem,
 Corou…
 
Miguel Torga

14/08/2013


Noites sem nome, do tempo desligadas,
 Solidão mais pura do que o fogo e a água,
 Silêncio altíssimo e brilhante.


As imagens vivem e vão cantando libertadas
 E no secreto murmurar de cada instante
 Colhi a absolvição de toda a mágoa."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen

 

 

09/08/2013

?


Sim, está frio...
 Está frio em tudo que sou, está frio...
 Minhas próprias ideias têm frio, como gente velha...
 E o frio que eu tenho das minhas ideias terem frio é mais frio do que elas.

 Álvaro de Campos

06/08/2013


"E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

Não, não olhei.

Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
 
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa
em que Fernando Pessoa se sentava, contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.  
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno, porque és real e tens forma,
vida, ímpeto, porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!"

Adolfo Casais Monteiro
Foto Hélder Reis

 

05/08/2013

Atreve-te a julgar


Atreve-te a julgar.
 Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
 A natureza das coisas é a tua natureza.
 Respira-te, despe-te,
 faz amor com as tuas convicções,
 não te limites a sorrir
 quando não sabes mais o que dizer.
 Os teus dentes
 estão lavados, as tuas mãos são amáveis
 mas falta-te
 decisão nos passos e firmeza nos gestos.
 Procura-te. Procura encontrar-te antes que
 te agarre a voracidade do tempo.
 Faz as coisas com paixão.
 Uma paixão irrequieta que não te dê descanso
 e te faça doer a respiração.
 Aspira o ar, bebe-o com força, é teu,
 nem um cêntimo pagarás por ele.
 Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo.
 Canta.
 Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
 e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
 o trabalho doce da abelha e a paciência
 com que crescem as árvores,
 canta cada momento que partilhas com amigos,
 e cada amigo
 como um astro que desponta
 no firmamento breve do teu corpo.
 E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
 E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
 Não fujas da alegria.
A própria dor ajuda-te a medir

 felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados

 e os séculos vindouros
 muito do pó que sacodes já foi vida,
 talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
 A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
 o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou
 Canta!
 Se sentires medo, canta.
 Mas se em ti não couber a alegria, não pares de cantar.
 Canta. Canta. Canta. Canta. Canta.
 Constrói o teu amor, vive o teu amor,
 ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem,
 o que mais querem é o amor.
 Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual,
ada será igual alguma vez.

 Canta. Enquanto esperas, canta.
 Canta quando não quiseres esperar.
 Canta se não encontrares mais esperança.
 E canta quando a esperança te encontrar.
 Canta porque te apetece cantar e
 porque gostas de cantar e
 porque sentes que é preciso cantar.
 E canta quando já não for preciso.
 Canta porque és livre.
 E canta se te falta a liberdade. 

Joaquim Pessoa. Vou-me embora de mim. Hugin. 2000.

04/08/2013

Vida...



 

 sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
 cujos passos são horas
 cadenciadas
 rítmicas
 fatais.
 A cada movimento do teu corpo
 dispersam asas de desejos
que me roçam a pele

e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais

Vou seguindo teus passos
 lutando e sofrendo
 cantando e chorando
 e ficam abertos meus braços:
 nunca te alcanço!
 Meu suplício de Tântalo.
 Envelheço...
 E tu, Vida, cada vez mais viçosa
 na oscilação nervosa
 das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
 À punhalada dilacero a folhagem
 e abro clareiras
 na floresta milenária do meu caminho.
 Humildemente se rasga e avilta
 no roçar dos espinhos
 minha carne dorida.
 E quando julgo chegada a hora
 meu abraço de posse fica escancarado no ar!
 Olímpica
 firme
 gloriosa
 tu passas e não te alcanço, Vida.
 Caio suado de borco
 no lodo...
 O vento da noite badala nos ramos
 sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
 Tenho medo, grito.
 Creio em Deus e nos fantásticos ecos
 do meu grito
 que vêm de longe e de perto
 do sul e do norte
 que me envolvem
 e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
 antes o deserto, a sede e a morte!

Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos"