29/09/2013

Amei demais


Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

Joaquim Pessoa

28/09/2013

Mar português

 
 
Se o oceano não fosse
essa casa de Cabral
esse sal, que à água doce
trouxe às naus de Portugal

O movimento maior
que levanta o albatroz
num grito que deu a voz
à fala do Adamastor

Se o mar não fosse o caminho
das terras da nossa terra
que guerras teria a paz
que paz nos traria a guerra

Ai, se este mar não soubera
o que ninguém adivinha
que nova carta escrevera
o Pêro Vaz de Caminha

E as índias da nossa idade
no mais fundo da viagem
dão vice-reis da coragem
guerreiros da eternidade

Esse mar que Luíz Vaz
derrotou com um poema
mensagem que o tempo traz
porque tudo vale a pena

Há esse cântico negro
do mais régio dos encantos
de alma grande tão pequena
que nunca atrevera tanto

Fez-se ao mar a caravela
com panos de liberdade
e ao cheiro de outra canela
o reino fez-se cidade
 
Lúcia Moniz

 

25/09/2013

Algumas coisas

 A morte e a vida morrem
e sob a sua eternidade fica
só a memória do esquecimento de tudo;
também o silêncio de aquele que fala se calará.

Quem fala de estas
coisas e de falar de elas
foge para o puro esquecimento
fora da cabeça e de si.

O que existe falta
sob a eternidade;
saber é esquecer, e
esta é a sabedoria e o esquecimento.

Manuel António Pina,

24/09/2013

?

"Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, s...em jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias..."

Fernando pessoa

23/09/2013

Sabedoria


 Desde que tudo me cansa,
 Comecei eu a viver.
 Comecei a viver sem esperança...
 E venha a morte quando
 Deus quiser.

 Dantes, ou muito ou pouco,
 Sempre esperara:
 Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
 Voava das estrelas à mais rara;
 Outras, tão pouco,
 Que ninguém mais com tal se conformara.

 Hoje, é que nada espero.
 Para quê, esperar?
 Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
 Se quero, é só enquanto apenas quero;
 Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
 E venha a morte quando Deus quiser.

 Mas, com isto, que têm as estrelas?
 Continuam brilhando, altas e belas.

 José Régio

21/09/2013

Ai, Margarida


 

 

Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?

— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.

Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?

— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo, 
E que eras parvo também.

E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer
 
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver

Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?

— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.

Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.
1-10-1927

Álvaro de Campos

20/09/2013




Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

  *

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

16/09/2013

?

Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: "Não sujes
a toalha"; "Não comes a maçã?"...
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.


Eugénio de Andrade

15/09/2013

?

Hei-de
começar mais tarde

por ora
sou a pegada
do passo por acontecer...

MIA COUTO

14/09/2013

?



Eu amo tudo o que foi
 Tudo o que já não é
 A dor que já não me dói
 A antiga e errônea fé
 O ontem que a dor deixou
 O que deixou alegria
 Só porque foi, e voou
 E hoje é já outro dia.

 Fernando Pessoa

09/09/2013

Eternamente tu...


 O tempo não sabe nada, o tempo não tem razão
 O tempo nunca existiu, o tempo é nossa invenção
 Se abandonarmos as horas não nos sentimos sós
 Meu amor, o tempo somos nós

 O espaço tem o volume da imaginação
 Além do nosso horizonte existe outra dimensão
 O espaço foi construído sem princípio nem fim
 Meu amor, tu cabes dentro de mim

 O meu tesouro és tu
 Eternamente tu
 Não há passos divergentes para quem se quer
Encontrar

 A nossa história começa na total escuridão
 Onde o mistério ultrapassa a nossa compreensão
 A nossa história é o esforço para alcançar a luz
 Meu amor, o impossível seduz

 O meu tesouro és tu
 Eternamente tu
 Não há passos divergentes para quem se quer
 Encontrar

 Jorge Palma

07/09/2013

Dia 291.




 Sou o teu coração e por isso te guio nesta floresta de palavras.
 O que nunca te disse não importa agora, está fora do meu ma-
nual de estratégia. Sim, porque só um coração possui uma es-
tratégia do impossível e a memória agradecida de um mendigo.
 Vamos. O amor é uma grande viagem.
Joaquim Pessoa