22/10/2014

Palavra de honra (?)



Palavra de honra que não estava nada à espera. Primeiro porque aos cinquenta e dois anos não se espera grande coisa, a não ser o médico a informar que um dos rins não está bem, e segundo porque em tantos meses a almoçarmos no mesmo restaurante, cada qual na sua mesa, eu com uma revista e ele com o jornal, nunca dei por qualquer soslaio, qualquer atenção, qualquer interesse da sua parte. Às vezes subia das páginas por causa de uma rapariga, que podia ser minha filha, a comer uma sopa ao balcão, passava-lhe uma luz nos óculos, a luz apagava-se, enfiava o queixo nas notícias, se calhar a aceitar, conformado
- Podia ser minha filha
pedia a conta antes de mim numa lentidão vencida, não deixava gorjeta que os tempos não estão para generosidades, ia-se embora um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo, via-o lá fora a acender um cigarro, a ingressar na bicha do multibanco, a meter um papelinho na carteira, a sumir-se por fim, lento, pausado, cuidadoso com os semáforos, e perdia-o até ao dia seguinte, em que uma alheira e o diário, ou uma corvina e o diário, ou meia de lulas e o diário, ou um clarãozinho nas dioptrias a propósito de uma sopa e uma rapariga que podia ser nossa filha. Portanto palavra de honra que não estava nada à espera quando hoje entrou no restaurante depois de mim, um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo e, apesar de haver duas ou três mesas sem ninguém, aproximou-se da minha e perguntou-me, numa voz que não ligava com a boca, se me importava que se sentasse à minha frente. De início nem percebi bem. Consegui um
- Perdão?
atrapalhado, a impedir, no último momento, o copo de água de se entornar porque um dos meus cotovelos, ou uma das minhas mãos, ou a minha revista o tombavam, ele insistiu, na tal voz que não ligava com a boca e eu imaginava cheia, redonda, suave, em lugar de mole, aguda, raspante
(mas isso são pormenores, o que interessa é a personalidade e o carácter)
- Não se importa que me instale aqui?
de maneira que eu
- Ora essa
a puxar o rectângulo de papel do prato, dos talheres, do guardanapo, de maneira a abrir espaço para o rectângulo dele, repetindo sem dar fé
- Ora essa, ora essa
de súbito consciente que mal penteada, mal pintada, mal vestida, sapatos rasos, meias cor de carne, pior que meias, collants, soutien cor de carne igualmente, um anelzeco de pacotilha, um colar sem relação com a blusa, brincos minúsculos, a pulseira idiota que uma sobrinha me impingiu, dois terços de baton já no guardanapo, os dentes, a necessitarem de ser limpos, teimando
- Ora essa, ora essa
enquanto ele estudava a ementa, longíssimo de mim embora ali...
(...)

António Lobo Antunes

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