Palavra de honra que não estava nada à espera. Primeiro
porque aos cinquenta e dois anos não se espera grande coisa, a não ser o médico
a informar que um dos rins não está bem, e segundo porque em tantos meses a
almoçarmos no mesmo restaurante, cada qual na sua mesa, eu com uma revista e
ele com o jornal, nunca dei por qualquer soslaio, qualquer atenção, qualquer
interesse da sua parte. Às vezes subia das páginas por causa de uma rapariga,
que podia ser minha filha, a comer uma sopa ao balcão, passava-lhe uma luz nos
óculos, a luz apagava-se, enfiava o queixo nas notícias, se calhar a aceitar,
conformado
- Podia ser minha filha
pedia a conta antes de mim numa lentidão vencida, não
deixava gorjeta que os tempos não estão para generosidades, ia-se embora um
pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para
o corpo, via-o lá fora a acender um cigarro, a ingressar na bicha do
multibanco, a meter um papelinho na carteira, a sumir-se por fim, lento,
pausado, cuidadoso com os semáforos, e perdia-o até ao dia seguinte, em que uma
alheira e o diário, ou uma corvina e o diário, ou meia de lulas e o diário, ou
um clarãozinho nas dioptrias a propósito de uma sopa e uma rapariga que podia
ser nossa filha. Portanto palavra de honra que não estava nada à espera quando
hoje entrou no restaurante depois de mim, um pouco gordo, um pouco marreco, de
cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo e, apesar de haver duas
ou três mesas sem ninguém, aproximou-se da minha e perguntou-me, numa voz que
não ligava com a boca, se me importava que se sentasse à minha frente. De
início nem percebi bem. Consegui um
- Perdão?
atrapalhado, a impedir, no último momento, o copo de água de
se entornar porque um dos meus cotovelos, ou uma das minhas mãos, ou a minha
revista o tombavam, ele insistiu, na tal voz que não ligava com a boca e eu
imaginava cheia, redonda, suave, em lugar de mole, aguda, raspante
(mas isso são pormenores, o que interessa é a personalidade
e o carácter)
- Não se importa que me instale aqui?
de maneira que eu
- Ora essa
a puxar o rectângulo de papel do prato, dos talheres, do
guardanapo, de maneira a abrir espaço para o rectângulo dele, repetindo sem dar
fé
- Ora essa, ora essa
de súbito consciente que mal penteada, mal pintada, mal
vestida, sapatos rasos, meias cor de carne, pior que meias, collants, soutien
cor de carne igualmente, um anelzeco de pacotilha, um colar sem relação com a
blusa, brincos minúsculos, a pulseira idiota que uma sobrinha me impingiu, dois
terços de baton já no guardanapo, os dentes, a necessitarem de ser limpos,
teimando
- Ora essa, ora essa
enquanto ele estudava a ementa, longíssimo de mim embora
ali...
(...)
António Lobo Antunes


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