Se existisse céu seria na nossa cama.
Escrevo-te com o teu corpo, adormecido, ao lado. Ouço a tua
respiração e sei que respiro, sei que respirar é apenas o momento em que te
ouço respirar. Respiras. E eu estou vivo.
Na nossa cama nenhuma vida entra. Somos nós, egoisticamente
nós. Só nós. Apenas nós. Na nossa cama nem Deus consegue entrar.
Somos tão grandes que religião alguma nos poderia definir.
E os nossos lençóis. Se fossem gente só saberiam sorrir.
Amar-te é ter os lençóis mais felizes do mundo.
Todos os lençóis mereciam uma vida assim.
Dormes enquanto te escrevo. Olho-te (o teu rosto como se me
dissesse que a vida é isto: o teu rosto deitado enquanto te escrevo) e sei que
te espero. Espero que venhas, que acordes para o abraço. Espero que chegues do
sonho e que acordes no sonho. E nada me chega. Nada me completa. Quero de ti
tudo o que és. No mínimo tudo. No mínimo quero tudo de ti.
A eternidade. Eis o que basta para te poder amar com algum
tempo.
Ontem adormecemos no sofá. Adormecemos sempre no sofá. E no
espaço em que nem um cabia coubemos os dois. Cabemos sempre os dois.
Cabemos sempre os dois. Eis o que o mundo todo deveria
aprender.
Somos tão grandes que cabemos sempre os dois.
E para onde um vai o outro está. E para onde um sonha o
outro faz. Somos companheiros de todos os instantes, confidentes de todos os
segredos. Antes de ti acreditava que chegarias. E chegaste.
Vieste com a naturalidade de quem me pertence. E eu
pertenci-te. Pertencemo-nos no momento em que percebemos que já não havia
depois, que já não havia antes. Nada te precedeu, nada te sobreviverá.
E todas as palavras ficarão por dizer.
Mas nenhum abraço ficará por apertar.
Acorda. Por favor acorda. Tenho de te dar mais um.


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