04/12/2014

Um Amor






Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice

3 comentários:

  1. Muy hermosas tus palabras , emocionan el alma.
    Besos

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  2. Ao ler esta sua excepcional postagem,no SCM Music Player tocava, AIR- de Johann Sebastian Bach, responsáveis por uma das minhas mais exuberantes e definitivas lembranças afetivas o que me fez ficar,ainda mais extasiado por tudo que acontecia por aqui.

    E as perdas são absolutamente ácidas,martelam nossas mentes enfraquecidas e faz dos nossos corações já em frangalhos, verdadeira lixeira da felicidade e dos nossos corpos, insepultos de objetivos maiores

    Paira então a sensação de que o horizonte do céu juntou-se à terra esmagando-nos,indesejável sensação de estreitamento dos, caminhos ,vielas ou atalhos fechados,e as dobras do tempo interrompidas pela saudade que massacra impiedosamente nossa lembrança em caquética situação de desfalecimento.

    As perdas, são pedras e pedras arremessadas contra as nossas mais necessárias e esperadas fantasias e nós que contávamos que tudo fosse um grande final do Cirque de Soleil,nos deparamos com um ledo engano,pois, estávamos sim, dentro de um mambembe circo de várzea onde o palhaço éramos, todos nós.

    Belo texto do Nuno Júdice, como se ele tivesse bordado cada desabafo como o fazem as nossas rendeiras de Bilro, em suas performances únicas.

    Saio daqui o suficientemente recompensado e para lhe provar que sou homem,chorei!

    Um abração carioca e nosso blogue Humor em Texto continua lhe esperando.

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    1. Como agradecer este "comentário"?! Não sei, com palavras, dizer-te quanto foi entendido... Talvez este abraço lisboeta te faça chegar a cumplicidade desse meu entendimento. Outro abraço!

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