Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso
embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem
não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova:
vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre
maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes,
pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas,
eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era
alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés
quase não tocavam no chão.
Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de
mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada,
pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas
canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam
ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.
Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do
clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos
e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela
observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim:
abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o
ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava
como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que
amara.
As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o
bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o
que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as
suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a
dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.
Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas
de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas.
Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a
menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.
Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde,
ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que,
certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram
ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou,
outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não
regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?
Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva,
lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o
passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de
azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez
fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se
relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o
ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.
Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem
encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que,
finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da
árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:
— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.
E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um
pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava
casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas
ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de
ternura.
Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas.
As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para
escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém
soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.
Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica
humilde.
Baptista Bastos
foto desconheço Autor
foto desconheço Autor


«Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas.» Esta frase é lapidar.
ResponderEliminarBoa tarde. Boas leituras e bom Natal.
Boas leituras, sempre!!!
EliminarBom Natal também para ti!
Olá, Maria Adelaide.
ResponderEliminarQue lindo e encantador é o seu cantinho/espaço/blog, o que mais gostar que lhe chamem. Já andei por cá, mas, sem tempo para comentar, decidi voltar a esta hora que é quando disponho de mais tempo livre.
Não poderia ter escolhido melhor hora! Adoro tudo o que escreve Baptista Bastos! Esta narrativa vai-nos envolvendo numa teia de suspense e emoção. Adorei!
Só discordo do verbo usado para designar o que a tal senhora , alta e atraente, fazia: "Vender"....
Eu diria que ela alugava ternura. Algo que quando temos muito e a outros falta, se se cobra algo em troca, não se vende, pois deixamos de ter. Aluga-se e, assim, nunca se perde...
Obrigada, por se ter feito minha seguidora. Farei o mesmo e aqui virei visitá-la, com todo o prazer!
Desejo-lhe um FELIZ NATAL.
Um beijinho.
Janita
Obrigada, Janita, pelas suas palavras.
EliminarFeliz Natal e muitas prendinhas, é um pouco do que lhe dessejo!
Beijinhos.
O nosso BB
ResponderEliminarTudo pelo melhor
Escreve bonito...eu gosto!
EliminarBom Natal!
Beijo
Feliz Natal Maria!
ResponderEliminarBeijo
Bom Natal, Eros!
EliminarBeijo
Não sou fã do BB enquanto pessoa. Mas sou-o na escrita. Um Santo e Feliz Natal.
ResponderEliminarBom Natal e obrigada pela visita!
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