29/12/2014

Subir o Chiado...(excertos do livro Chiado meu Amor)



«Quando vou ao Teatro é para ver e ser vista!»

(Velha amiga da minha Avó)


Dobrou a esquina do Rossio para a rua do Carmo, e começou a subir o Chiado…
Subir o Chiado não é só ir da Baixa ao Camões, ao Largo Bordallo Pinheiro, ao Carmo, ao Chiado propriamente dito, ou até mesmo ir tomar a bica n’A Brasileira.
Subir o Chiado, para disfrutar da subida, tem muito mais que se lhe diga (…)
(…) Se for no inverno, e como eu sente o frio seco nas mãos (ah! estes Ilhéus…), tem logo ali, no início da subida, a Luvaria Ulisses para adquirir umas luvas.
Podem até ser gris perle, como tantas vezes o Eça referenciou nos seus livros. Repare bem no estabelecimento. Deve ser o mais pequeno do Mundo sem ser de vão de escada (…)
(…) Abrigado das mãos, continue no remanso da subida. Cruze a rua e admire as montras da Alliaud & Lellos e da Livraria Portugal. Além das novidades, há ali, principalmente, livros que dificilmente encontrará em outras livrarias.
Ao voltar para o outro lado da rua repare que o prédio em frente tem só rés-do-chão e sobreloja. É que, por detrás, fica aquilo que, em tempos, se chamava a Pedreira. Daí saiu muita da pedra que foi usada na construção do Convento do Carmo, que visitará mais adiante. (…)
(…) Depois, para retemperar forças, que tal um lanche na Ferrari? Já não é a mesma sala, um tanto ou quanto belle époque, mas o serviço continua impecável (…)
(…) Subamos então a Rua do Poeta, do Dramaturgo, do Político, do Dandy, do Garret (não se esqueça de pronunciar-lhe, pelo menos um “t” (…)
(…) Depois de, no Piccadilly comprar aquela gravata que procurava há tanto tempo, é difícil conseguir não parar, não entrar na Livraria Bertrand – o que havia de histórias para contar dessa esquina…
Com o livro sobre o que foi, o que é, e o que vai ser o Chiado, sob o braço, dê mais uns passos e entre na Basílica dos Mártires. Reconfortado do estômago, com leitura para uns dias, procure agora reconfortar a sua alma. Foi na Paróquia dos Mártires – não quer dizer nesta Igraja – que se administrou o primeiro baptismo depois da tomada de Lisboa aos Mouros, no ano de 1147 (…)
(…) Não estará agora na hora de tomar um café n’A Brasileira? Já não é o mesmo ambiente, mas o café é bom e ainda lá está aquele magnífico quadro do Hogan.
Logo ao lado do café ainda lá está, também, a Havaneza. Tabaco – cigarros, cigarrilhas, charutos, tabaco para cachimbo – é ali de confiança, é, aliás, uma tradição que se mantém. E tem também outras cousas para o tentarem ou para resolverem o problema da oferta, do presente que tem de dar.
Defronte mantém-se o Ramiro Leão cujo fundador oferecia, de quando em vez, n’A Brasileira um jantar aos Artistas que ali assentavam arraiais…
Antes de ser Ramiro Leão foi J. Martins & Filhos, Mercearias Finas, e era aí que Alexandre Herculano colocava o seu famoso azeite de Vale de Lobos. Bordallo, n’O Calcanhar de Aquiles, publicou uma magnífica caricatura representando, nessa esquina, Herculano com as suas vazilhas de azeite fazendo gaifonas aos basbaques encostados à montra da Havaneza.
Abastecido do seu tabaco, à saída da Havaneza pare e olhe em frente. Tem, face a si, uma Rua com três nomes: Paiva de Andrade, Largo do Picadeiro e Duques de Bragança. Esse conjunto termina, do lado de lá da Rua Victor Cordon, num grande edifício onde estão instalações da Universidade Livre. Era aí, nesse edifício, que funcionava o Hotel Bragança, tão mencionado nos romances do Eça de Queiroz.
É talvez ocasião de pensar num lugar para jantar: aí o problema é só de escolha se por acaso a sua bolsa ainda está abastecida. Um pouco mais acima, na Rua da Misericórdia, tem o Tavares, logo ali ao lado, o Rex, e um pouco mais abaixo o Avis.
Tem tempo ainda para dar um salto até ao Largo do Carmo (…)
(…) local onde o Poder não caiu na rua talvez pela protecção tutelar do Condestável.(…)
(…)Ao centro do Largo há um belo chafariz muito maltratado. Em tempos resolveram adicionar-lhe um depósito para água e, com o acrescento, todo o equilíbrio arquitectónico se perdeu.(…)
(…) Dali, do Largo, pode passar ao cimo do elevador de Santa Justa donde disfruta uma magnífica vista sobre a Baixa e parte Ocidental de Lisboa; Vale a pena e são só cinquenta metros. (…)
(…) Depois do opíparo jantar, ao caminhar calmamente para a ópera, em São Carlos, vai filosofando: tanta cousa que há para ver, aqui, no Chiado.
E embora a Ramalhal Figura chamasse ao Chiado a ladeira vaidosa, chega à conclusão de que é bem mais importante ver do que ser visto…
E volte sempre…há muito, muito mais para ver…

Duarte Cannavial
Foto Mário Marzagão

27/12/2014

A vida das mulheres



Porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago
O que me aconteceu que não me apetece fazer amor com o meu marido? As minhas amigas garantem que ao fim de cinco anos de casada é inevitável, a ideia vai deixando de exaltar-nos, até se continua a ter prazer mas não é a mesma coisa, se em vez do meu marido fosse outro qualquer era igual, o tempo mata o entusiasmo e o desejo mas, em compensação, aparecem outras alegrias, sobretudo o facto de ter uma família, uma certa paz, uma rotina no fim de contas agradável, um sentimento de estar protegida, de segurança, de estabilidade embora com os homens nunca se saiba, tão infantis, tão à mercê de entusiasmos, caprichos, qualquer par de pernas os transtorna, as raparigas mais novas põem-nos a ferver mas a segurança e a estabilidade, ainda que precárias às vezes, existem de facto, claro que há separações, divórcios, etc., porém a estabilidade e a segurança, uma certa estabilidade e uma certa segurança existem de facto e depois, uma vez a meio da semana e outra ao fim de semana, lá vem a mãozinha, a perna, o corpo todo, é agradável sem ser muito bom, aquela paz do depois sossega a gente e, para além do sossego, o alívio de saber que por uns dias teremos descanso, jantares com amigos, a televisão, o jornal, a vida é isto, quanto ao fazer amor umas ocasiões é agradável, outras nem tanto, a partir de um certo tempo em comum as coisas tendem a passar-se mais ou menos da mesma maneira, não há grandes variações, não há acrobacias, acabam e levantam-se logo com a desculpa do chichi, do copo de água, das crianças que podem ouvir
(ouvir o quê se acabou?)
parecem aborrecidos connosco, parecem fartos, não respondem, resmungam, não conversam, ficam calados no sofá ou telefonam a um colega do emprego para combinar um jantar a quatro, há quantos meses não jantamos sozinhos, há quantos meses não me beija sem segundas intenções, só por beijar, não me diz nada terno, não me pega na mão, na semana passada perguntei-lhe
- Gostas de mim?
respondeu
- Estou aqui não estou?
parecia que admirado com a pergunta, se ponho um vestido novo anima-se um bocado porque me tornei outra e é a outra que lhe interessa, não eu, a mesma reacção com brincos grandes, mais maquilhagem, saltos altos, a quem é que apetece fazer amor afinal, a mim, a ele, é evidente que não me interessam outros, nem olho, o actor de uma série de televisão mas isso um entusiasmo vago, um
- Como seria se
que conforme aparece se esfuma, quando vamos no carro já me aconteceu pensar no actor, uma espécie de pergunta, porque não chega a pergunta
- Como se seria se
e passa, o meu marido não gosta de conversar enquanto conduz ele que ao princípio conversava imenso
- Não me desconcentres que só temos seguro contra terceiros pergunto-me se o actor me daria atenção ou ao cabo de cinco anos o mesmo, suponho que o mesmo ou antes tenho a certeza que o mesmo, pelo que oiço não há-de haver muitas diferenças entre eles, porque razão nós as mulheres não somos felizes, quer dizer até podemos ser felizes mas não somos felizes felizes e muito menos felizes felizes felizes, também não somos infelizes, é um estado de alma assim assim que o facto de termos uma família vai compondo, uma família, a casa paga, os electrodomésticos pagos, tudo pago, chegarmos juntos para comer nos meus pais que nem sonham que não me apetece fazer amor com o meu marido, até continuo a ter prazer mas não é a mesma coisa, nem pensam nisso em relação a mim, detestam pensar nisso em relação a mim porque continuo a ser menina para eles, se a minha mãe
- Está tudo bem entre vocês? respondo logo que está tudo bem, não se preocupe, nunca esteve tão bem e depois os miúdos graças a Deus são óptimos, tive imensa sorte, sabia, não trocava o que tenho nem por uma mina de ouro, a minha mãe, desconfiada
(aquele instinto das mulheres que ela, apesar dos setenta e três anos, ainda não perdeu)
- Palavra de honra?
enquanto o meu pai e o meu marido jogam às damas e nós na cozinha, em voz baixa, vejo-os daqui debruçados para o tabuleiro, no caso de perguntar à minha mãe e não pergunto, é evidente
- Está tudo bem entre vocês?
ela de súbito quieta, da minha idade e quieta, idêntica a mim
- Está tudo bem, não te preocupes
e não está tudo bem pois não, diga lá, nunca esteve tudo bem e agora é tarde para recomeçar a vida, filha, repara no meu corpo, no meu cabelo, nas minhas pernas, na minha cara, na minha pele, repara como envelheci, nem acredito quando me vejo ao espelho, ao nasceres pensei
- Acabou-se
e desisti, percebes, desisti, mas aparte ter desistido tudo bem, viste o actor daquela série da televisão, filha, talvez não acredites mas já me aconteceu que, não ligues, era uma conversa parva, o que é que me deu hoje, há alturas em que me torno uma adolescente tonta, que ridículo, uma adolescente de setenta e tal anos, que palermice, há alturas, lá ia eu continuar com a conversa, o que me preocupa é que tu estejas bem, a única coisa na vida que me preocupa é que tu estejas bem, o resto não tem importância, que tu estejas bem por mim que não espero seja o que for, passou muito tempo, entendes, demasiado tempo e não há tempo para mim hoje em dia, chega acontecer, vê só a estupidez, chega a acontecer imaginar-me morta e não é inteiramente desagradável, calcula, porque, pensando um bocadinho nisso, desde que me tornei mulher quando é que foi bom viver?


António Lobo Antunes
foto desconheço Autor

26/12/2014

Disse a flor...


"Disse a flor para o pequeno príncipe: é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas!"


Antoine de Saint-Exupér
Foto desconheço Autor

24/12/2014

Natal...



Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde

Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale

Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual

Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida

Na tal em que o natal era Natal.

David Mourão-Ferreira

22/12/2014

Um pouco de Ternura...




Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?
— Bom…bom — Não sabia o que responder.
— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

Baptista Bastos
foto desconheço Autor

21/12/2014

Amar...



"Amar é a eterna inocência.
E a única inocência é não pensar."

Alberto Caeiro

20/12/2014

Ofereço-te palavras...



Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira
foto desconheço Autor







19/12/2014

É de noite...


" É de noite e falta-me apenas um quase para estar sozinha no quarto. Ou, no rigor: o quarto estar sozinho comigo."


Mia Couto
foto desconheço Autor

18/12/2014

Se, por um instante....



"Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo."


Gabriel Garcia Marquez
foto desconheço Autor

16/12/2014

Aniversário...

Oficina do Gif


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim aolhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Álvaro de Campos

15/12/2014

Quando eu fôr pequeno...



Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou
                                                       [pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.


José Jorge Letria
foto desconheço Autor

14/12/2014

Amanhã...



Amanhã, ou enquanto dormes
- agora mesmo - vou pensar em ti.
Intensamente: até que as horas me doam sobre a pele,
e o movimento dos dias passe como aves
que perdem o sentido do voo - até que tudo
o que me rodeia tome a forma do teu corpo.
E em mim circules - quando estendo a mão
por dentro da noite e te acordo,
no fogo dos meus olhos.

Al Berto
Foto desconheço Autor

13/12/2014

Sonata de outono




Inverno não é índa mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito

Inverno não é índa mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo não respeito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Morro de pé
Mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Não me deixo ficar
Não pode ser
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer

A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser


José Carlos Ary Dos Santos

Sempre amei por palavras muito mais...




Sempre amei por palavras muito mais
do que devia

são um perigo
as palavras

quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos

um perigo
as palavras

mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero

Alice Vieira.

12/12/2014

Como se...




"Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente."

Nuno Júdice
foto Mário Marzagão

11/12/2014

Interior




Abeiro-me de mim
pelo silêncio

Vou atrás
do sobressalto
no sobressalto do vento

Encontro-me
na tempestade
onde a saudade se inventa

Sou a dúvida constante
onde se perde a tormenta

Maria Teresa Horta


09/12/2014

O silêncio...



"O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra."


Mia Couto

08/12/2014

Não, não é cansaço...




"Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo..."

Álvaro de Campos

07/12/2014

As pessoas não morrem...



As pessoas não morrem: andam por aí. Quantas vezes as sinto à minha volta, não apenas a presença, o cheiro, a cumplicidade silenciosa, palavras que saem da minha boca e me não pertencem, penso
- Não fui eu quem disse isto
e realmente não fui eu quem disse isto, foram as pessoas mortas, exprimem opiniões diferentes das minhas, aproximam-se, afastam-se, vão-se embora, regressam, não me abandonam nunca. Em que parte da casa moram, qual o lugar onde dormem, devíamos deixar pratos a mais na mesa, talheres, copos, almoço que chegasse, os guardanapos nas argolas, um lugar no sofá, metade do jornal, dado que não se sumiram: andam por aí, invisíveis
(invisíveis?)
densas de humanidade, tão próximas. Umas alturas muitas, outras uma ou duas apenas por terem que fazer noutro lado, no caso de saírem não vale a pena preocuparmo-nos: têm a chave e a prova que têm a chave está em que entram, silenciosas, amigas, penduram os casacos no bengaleiro, sorriem. Onde se encontra o pai? Na cadeira do costume. Onde se encontra a avó? Lá fora, no quintal, a alinhar a roupa no frio, ou a fazer festas à cadela com a mão leve de sempre. Os cemitérios são lugares vazios, só árvores, sem defuntos, só a gente, que arranjamos as campas, sem entendermos que não existe ninguém lá em baixo. Para quê visitar ausências? Uns pardais nos choupos, nada. Que sítios tranquilos, os cemitérios, que inútil a palavra defunto. Segredam-nos
- Não faleci, sabes?
e não faleceram, é verdade, continuam, não na nossa lembrança, continuam de facto, pertinho. Quase sem ruído mas, tomando atenção, percebem-se, quase não ocupando espaço mas, reparando melhor, ali, iguais a nós, tão vivos. Andam por aí, pertencem-nos, pertencemos-lhes, não deixámos de estar juntos. Nunca deixámos de estar juntos: Quando é necessário poisam-nos a palma no ombro. Na época em que andei muito doente houve sempre palmas no meu ombro, a ajudarem. E agora, na mesa a escrever isto, espreitam o papel, sabem, melhor do que eu, as palavras que se seguem. O meu avô
- Não te aborrece escrever?
ele, a quem nunca vi ler um livro, instalava-se diante dos canteiros, em silêncio, a olhar as árvores, suponho que a olhar o Brasil da sua infância. Avôzinho. Tão diferente de mim: muito moreno, de cabelo encaracolado, lindo. Continua por aí, não deixe de continuar por aí. Um amigo meu, que disse a missa de corpo presente da mãe, contou-me que, ao voltar a casa semanas depois, a primeira pergunta que fez foi
- A mãe?
seguro de a achar num compartimento qualquer. E, de certeza
(isto já não me contou)
que deu com ela. Que dá com ela a cada passo. Nem é preciso interrogar seja quem for, a mãe encarrega-se de resolver o problema, haverá algum problema que uma mãe não resolva? Não é infantilidade da minha parte afirmar isto: é assim. Frase da minha, ontem
- A gente tem que se divertir ao divertir as crianças, porque se a gente não se divertir elas não se divertem
e eu de boca aberta. É que não há coisa mais séria que o divertimento. Os nossos brinquedos foram uma coisa importantíssima para o meu pai. Confiscava-nos alguns para seu gozo pessoal, secreto. A gravidade apaixonada com que ele jogava. Tenho os postais que o meu avô lhe mandava da guerra em França, derramados de ternura para um garotinho de dois anos. O paizinho gostava que o Janjão, etc. Andam os dois por aí agora, o Janjão e o paizinho. E, se calhar, o Janjão continua a receber postais. E de certeza que o Janjão continua a receber postais. É verdade não é, senhor, que continua a receber postais? Mesmo de bata, no hospital, mesmo professor, mesmo importante? Postais. Há quanto tempo não recebo postais. Uma carta de vez em quando, papelada da agência, das editoras, dos tradutores mas postais, postais-postais, népia. E aqueles que andam por aí, sei lá porquê, não me mandam nenhum. Ou mandam-se a si mesmas e acham que chega. E, em certo sentido, chega. Mas umas palavrinhas, num cartão, caíam bem, há alturas em que umas palavrinhas num cartão caem bem. Não sei porquê mas caem bem. Não faço nenhum livro agora, ando vazio, e o vazio começa a inquietar-me. E se isto acabou? Terei secado? Apareceu-me uma coisa mas não dava, de maneira que fiquei sem nada. As falsas partidas, os equívocos, pensar que se consegue e não se consegue. O que julgarão desta impotência aqueles que andam por aí? Não lhes falo nisso, claro, é o género de assuntos que guardo para mim, guardo quase tudo para mim. A casa frente ao mar que nunca tive, por exemplo, tenho prédios feios. Algumas árvores e prédios feios. Que silêncio. A minha filha, no computador, entretem-se com o que chama um jogo de estratégia, em lugar de se sentar no meu colo. Olho para o écran e não percebo raspas, deve ser uma estratégia complicadíssima. Afirma que está a construir coisas. Ao menos que haja alguém ao pé de mim a construir seja o que for, compenetrada, solene. Se olhar bem o seu ombro vejo a palma que poisou nela. Há palmas tão bonitas quanto os pássaros. Daqui a nada, sem que ela dê por isso, começa a cantar. Basta um bocadinho de atenção para a ouvir cantar. E, ao cantar, começo a escutar as ondas. Uma após outra. Para mim. Atrás destas janelas e destas árvores há-de haver uma praia. Reparem.


António Lobo Antunes

05/12/2014

Toma-me, noite...

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Se vens à minha procura,
eu aqui estou. Toma-me, noite,
 sem sombra de amargura,
 consciente do que dou.
Nimba-te de mim e de luar.
 Disperso em ti serei mais teu.
 E deixa-me derramado no olhar
 de quem já me esqueceu.

 Eugénio de Andrade

04/12/2014

Um Amor






Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.

Nuno Júdice

Ânsia



Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma

As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo

Mia Couto


Desvio dos teus ombros...



Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira



03/12/2014

Abraço tem que ter...




Abraço tem que ter pegada, jeito, curva.
Aperto suave, que pode virar colo.
Alento tenso, que pode virar despedida.
Abraço não pode ser rápido senão é empurrão.
Abraço é para atravessar o nosso corpo.
Ir para a margem oposta.
Abraço é confissão.

Fabrício Carpinejar

02/12/2014

Já...



já não é hoje ?
não é aquioje?

já foi ontem?
será amanhã?

já quandonde foi?
quandonde será?

eu queria um jàzinho que fosse
aquijá

tuoje aquijá.


Alexandre O’Neil

01/12/2014

Ela, sòzinha....


"Ela sozinha, ela independente, ela livre, professora numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se, as covinhas também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da mão, quem te deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar assim, o que vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer"
Passados muitos anos ela disse-lhe
- Sempre gostei de ti, sabias?
e ele espantado: nem sonhava, era muito novo, quinze ou dezasseis anos, não reparava nessas coisas. Ficou a olhá-la, sem acreditar
- A sério?
e o que via era uma senhora de cinquenta anos que engordara, ganhara rugas, pintava o cabelo, mantinha, quando muito, uma sombra do sorriso de dantes no sorriso de agora, as mesmas covinhas nas bochechas, os mesmos olhos redondos mas com pálpebras diferentes, pregas injustas no pescoço, essas sardas que, a partir de certa altura, começam a aparecer nas costas das mãos, pernas espessas, sem tornozelos, onde pernas estreitas dantes, a cintura substituída por um relevo redondo. Espantou-se também com isso, com a crueldade das mudanças dela, esquecido, por instantes, da crueldade das mudanças dele, o cabelo ralo, os óculos, a cicatriz da operação a uma coisa na pele a que torceram o nariz no hospital e, no entanto, correu bem, ficou o lábio um bocadinho repuxado, ficou uma órbita mais redonda do que a outra, mas agora só precisava que o vissem de ano a ano 
- Teve muita sorte
e ele grato à sorte às vezes, outras nem por isso, ao pensar
- No fundo qual é a piada de estar vivo?
e a arrepender-se logo da frase, não fosse o destino tomá-lo à letra e mandar-lhe outra coisa na pele ou noutro sítio qualquer, o que não falta numa pessoa são sítios para as doenças, a quantidade de tralha que a gente tem cá dentro. E agora, de repente, salta-lhe do passado, sem mais nem menos, aquela rapariga
(rapariga?)
com uma pergunta que o deixou banzo 
- Sempre gostei de ti, sabias? 
ele que tinha a certeza que ela nem reparava, a cochichar com as amigas, toda segredos e alegrias, na sua ideia indiferente a ele, indo-se embora sem o olhar sequer. Lembrou-se de uma ocasião lhe terem deixado uma prata de chocolate azul no livro de Geografia, de se demorar na prata a pensar - Quem meteu isto aqui?
saltou-lhe, quase sem querer 
- Foste tu quem meteu uma prata de chocolate no meu livro de Geografia?
e a rapariga à sua frente
(rapariga?)
a corar, que estranho como, apesar da idade, as mulheres ainda coram, ainda apertam os dedos uns nos outros, ainda perguntam
- A sério que nunca deste por nada? 
e claro que nunca deu por nada, acabou por deitar a prata fora, que patetice, ele com uma vontade súbita de reaver a prata, tirá-la da carteira, por exemplo, e mostrar-lha
- Olha
e ela mais corada ainda, apertando mais os dedos uns nos outros, erguendo um ombro, ela enternecida, quase à beira das lágrimas que se percebia pela tremura das pálpebras, ela, feliz
- Obrigada 
porque afinal ainda existia, ainda era nova, ainda tinha esperança, ela divorciada 
- Há séculos
um neto com dois anos do filho emigrado na Holanda
- Casou com uma holandesa, é engenheiro 
e portanto ela sozinha, ela independente, ela livre, professora numa faculdade ou isso, a sombra do sorriso de dantes aguentava-se, as covinhas também, mas a gordura, as rugas, o cabelo, as sardas nas costas da mão, quem te deu licença de te tornares assim, quem me deu licença de me tornar assim, o que vale aquilo que somos agora, o que podemos fazer, ela
- E se a gente almoçasse um dia destes? 
ele a concordar com entusiasmo para dentro e, no entanto, calado porque as pernas, porque os tornozelos, ela a compreender melhor do que ele pensava
- Alterei-me muito, não foi?
e a tremura das pálpebras a aumentar, uma lágrima, desta feita presente, a embaciar-lhe o sorriso
- Sempre gostei de ti
a frase não jovial, trémula 
- Sempre gostei de ti 
a lágrima apanhada com o mindinho
- Interessa-me lá como tu és agora
não lhe interessava a ela como ele era agora mas interessava-lhe a ele como ela era agora, meu Deus o que faço eu com o convite do almoço, desculpou-se
- O melhor é dares-me o teu telefone e eu depois ligo
e não ligar, é evidente, sobretudo não ligar, gordura, rugas, as raízes do cabelo grisalhas, nem pensar em ligar, para quê, para sentir pena de si mesmo, para sentir pena dela, recebeu uma página de agenda com um número escrito e enfiou-o na algibeira sem olhar para ele
- Assim que nos separarmos vai fora 
não lhe entregou o seu, claro, cair numa asneira dessas nem sonhar, ainda me chama mesmo e depois, separaram-se com um par de beijinhos castos que ele desejaria mais rápidos e nem olhou para trás, quais cinquenta anos, cinquenta e cinco no mínimo, que horror tudo isto, que pesadelo, que estranho e, ao mesmo tempo as covinhas, o sorriso, os olhos redondos, que lindos os olhos redondos porém agora as pálpebras diferentes e as sardas nas costas das mãos, o que lhe repugnavam sardas nas costas das mãos, a avó dele assim e o susto dela lhe tocar, ele a implorar calado 
- Por favor não me toque, senhora
de maneira que amarrotou a página da agenda no bolso antes de puxá-la para a deitar fora e só ao abrir discretamente
(era a favor da higiene nas ruas) 
a palma para que a folha com o número caísse no chão reparou que era uma prata de chocolate azul.


António Lobo Antunes
foto desconheço Autor