27/12/2015

Poema do Menino Jesus

Num meio-dia de fim de primavera

Eu tive um sonho como uma fotografia

Eu vi Jesus Cristo voltar à terra.

Veio pela encosta de um monte.

E era a eterna criança, o Deus que faltava.

Tornando-se outra vez menino,

A correr e a rolar pela relva

E a arrancar flores para deitar fora.

E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.

Era nosso demais para fingir desegunda pessoa da Trindade.

Um dia, que Deus estava dormindo

e que o Espírito Santo andava a voar

Ele foi até a caixa dos milagres e roubou três.

Com o primeiro, ele fez com que ninguém soubesse que ele tinha fugido.

Com o segundo, ele criou-se eternamente humano e menino.

E com o terceiro ele criou um Cristo
e o deixou pregado numa cruz que serve de modelo às outras.

Depois ele fugiu para o sol

e desceu pelo primeiro raio que apanhou.

Hoje ele vive comigo na minha aldeia

e mora na minha casa em meio ao outeiro.

É uma criança bonita, de riso e natural.

Atira pedra aos burros.

Rouba a fruta dos pomares.

E foge a chorar e a gritar com os cães.

Nem sequer o deixaram ter pai e mãe

como as outras crianças.

Seu pai eram duas pessoas: um velho carpinteiro

e uma pomba estúpida, a única pomba feia do mundo.

E sua mãe não tinha amado antes de o ter.

Não era mulher, era uma mala
em que ele tinha vindo do céu.

E queriam que justamente ele pregasse o amor e a justiça.

Ele é apenas humano,

limpa o nariz com o braço direito,

chapina as possas d'água;
colhe as flores, gosta delas,

esquece-as.

E porque sabe que elas não gostam
e que toda a gente acha graça,

ele corre atrás das raparigas
que carregam as bilhas na cabeça e levanta-lhes as sáias.

A mim, ele me ensinou tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as belezas que há nas flores.

E mostra-me como as pedras são engraçadas

quando a gente as tem nas mãos e olha devagar para elas.

Ensinou-me a gostar dos reis e dos que não são reis.

E tem pena de ouvir falar das guerras e dos comércios.

Diz-me muito mal de Deus.

Diz que ele é um velho estúpido e doente.

Sempre a escarrar no chão e a dizer indecências.

E que a Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meias.

E o Espírito Santo coça-se com o bico;

empoleira nas cadeiras e suja-as.

Tudo no céu é tão estúpido como nas Igrejas.

Diz-me que Deus não percebe nada das coisas
que criou - do que duvido.

"Ele diz por exemplo que os seres cantam sua glória.

Mas os seres não cantam nada
se cantassem, seriam cantores.

Eles apenas existem e por isso são seres..."

Ele é o humano que é o natural.

Ele é o divino que sorri e que brinca.

E é por isso que eu sei com toda certeza que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E depois, cansado de dizer mal de Deus

ele adormece nos meus braços.

E eu o levo ao colo para minha casa.

Damo-nos tão bem na companhia de tudo

que nunca pensamos um no outro.

Mas vivemos juntos os dois

com um acordo íntimo,

como a mã0 direita e a esquerda.

Ao anoitecer, nós brincamos nas cinco pedrinhas do degrau da porta de casa.

Graves, como convêm a um deus e a um poeta.

É como se cada pedra fosse um universo

e fosse por isso um grande perigo deixá-la cair no chão.

Depois ele adormece.

E eu o deito na minha cama despindo-o lentamente

seguindo um ritual muito limpo, humano e materno até ele ficar nu.

E ele dorme dentro da minha alma.

Às vezes ele acorda de noite e brinca com os meus sonhos.

Vira uns de perna para o ar.

Põe uns encima dos outros.

E bate palmas sozinho sorrindo para o meu sono.

Quando eu morrer, filhinho, seja eu a criança, o mais pequeno.

Pega-me tu ao colo.

E leva-me para dentro da tua casa.

E deita-me na tua cama.

E conta-me histórias, caso eu acorde, para eu tornar a adormecer.

E dá-me os sonhos teus para eu brincar...


(Alberto Caeiro)

20/12/2015

Ama-me, agora...

" Ama-me,
agora
antes que a palavra chegue.
Toca-me
antes que haja mundo,
Beija-me
antes que comece o beijo.
Despe-me
para que eu esqueça ter corpo.
Devolve-me
o reino onde fui deus.
Ama-me
até não sermos dois.
Ama-me.
E tudo será depois."


Mia Couto 

03/12/2015

Passa ave, passa...

Antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto,
Que a passagem do animal, que fica lembrada no chão.
A ave passa e esquece, e assim deve ser.
O animal, onde já não está e por isso de nada serve,
Mostra que já esteve, o que não serve para nada.

A recordação é uma traição à Natureza.
Porque a Natureza de ontem não é Natureza.
O que foi não é nada, e lembrar é não ver.

Passa, ave, passa, e ensina-me a passar!

Alberto Caeiro

30/11/2015

Até amanhã...

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:

a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade

27/11/2015

Não há nome para a tua ausência...

Não há um nome para a tua ausência. Há um muro
que os meus olhos derrubam. Um estranho vinho
que a minha boca recusa. É Outono.
A pouco e pouco despem-se as palavras.


Joaquim Pessoa

20/11/2015

José...





E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?

Carlos Drummond de Andrade


13/11/2015

Quando vier a Primavera...


Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

(....)

Alberto Caeiro

11/11/2015

Fomos quase amantes...

Fomos quase amantes perfeitos, quase um casal perfeito, quase a felicidade perfeita.
Houve dias em que os corpos quiseram, dias em que os corpos forçaram. Foi nesses dias que nos abraçámos, as minhas mãos à volta de ti, as tuas à volta de mim, um abraço inteiro a comprovar que tudo o que me bastava era coragem.
Bastava eu dizer o que nunca parei de te dizer, o que todos os dias ensaiava dizer-te, para que este peso que agora será meu para sempre se diluísse em suor.
Perdoas-me amar-te para sempre em silêncio?


Pedro Chagas Freitas

05/11/2015

Há um lábio sobre a noite...

Há um lábio sobre a noite, um lábio sem palavra.
O secular ouvido espera, como em ruínas,
Sem poder desistir, sem coragem de crer.

As vigílias que estão pela terra guardadas
Não compreendem que alento as conservam inflexíveis,
Sem que um suspiro ouse nascer da angústia.

Mas o lábio da noite é uma espada suspensa.
Ferida para sempre a alegria dos olhos
Que a percebem parada entre a súplica e o céu.

Pouco a pouco se morre e ninguém mais encontra
A rosa que caiu do coração vencido,
Nas mil sombras que vêm desses bosques da insônia.


Há um lábio longe, que em vão se escuta.



Cecília Meireles

02/11/2015

Como se fosse o último dia...




Desperta-me de noite
O teu desejo
Na vaga dos teus dedos
Com que vergas
O sono em que me deito

É rede a tua língua
Em sua teia
É vício as palavras
Com que falas

A trégua
A entrega
O disfarce

E lembras os meus ombros
Docemente
Na dobra do lençol que desfazes

Desperta-me de noite
Com o teu corpo
Tiras-me do sono
Onde resvalo

E eu pouco a pouco
Vou repelindo a noite
E tu dentro de mim
Vai descobrindo vales.

  Maria Teresa Horta

29/10/2015

Um dia...


Um dia, quando a minha memória de homem fugitivo
alcançar a idade de um deserto, debruçar-me-ei num poço e
tentarei beber o tempo esquecido do teu rosto. Estarei lucidamente
morto, eu sei, e os meus olhos já não prenderão a adolescência,
nem as imagens que dela se soltaram. E a minha cegueira surgirá
cercada por frondosas árvores e pássaros, mas não os verei mais.
O rosto, o teu rosto, já não conseguirá atrair-me para o fundo
circular do poço.

Al Berto

26/10/2015

Eu quero a Paz...


"Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez."


Mia Couto

24/10/2015

Queria falar contigo...



Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.


Eugénio de Andrade

17/10/2015

Postscriptum




... apercebo o lume dum coração antigo e simples
atravesso a cor luminosa dos sonhos sem me deter...
... aqui deixo o espólio daquele cuja vida
é cintilação de lugares nítidos...

(um pouco de café, uma carta, um pedaço de vidro)

... tenho a certeza de que se virasse o corpo do avesso
ficaria tudo por recomeçar...
... mas se aqui voltares
talvez encontres estes papéis escritos
no recanto mais esquecido da noite... talvez
descubras o vazio onde o corpo desgasto esperou...

... vou destruir todas as imagens onde me reconheço
e passar o resto da vida assobiando ao medo...


Al Berto

13/10/2015

Anda ser feliz comigo...


“Anda ser feliz comigo. Pago-te todas as despesas de deslocação e estadia. Não te prometo um hotel de cinco estrelas, mas antes um cantinho acolhedor com uma bela lareira e boa música. Prometo servir-te todos os dias o pequeno-almoço na pequena varanda com vista para onde quiseres, desde que tenhas a capacidade de entender que a imaginação será sempre o nosso maior talento. Não vou ter álcool em casa, não porque não goste, mas porque não quero que nos embriaguemos senão com o amor de cada um. Vou ter apenas três livros na sala, um de sonhos, outro de destinos e um último de segredos. Estão todos em branco e quero muito que sejamos nós a escrevê-los numa linguagem surripiada ao coração de ambos. Prometo amar-te e serenar o teu peito sempre que sentires vontade de partir. Prometo falar-te de quem podes ser comigo e mostrar-te o quanto sou contigo. Sei que vais querer que deixe queimar em toda a casa incensos de sal e fogo para nos lembrar de onde vimos e para onde vamos, mas vou também desejar muito acender velas nos quatro cantos do quarto apenas para ver e sentir as tuas sombras sempre que tomar o teu corpo no meu. Anda ser feliz comigo. Não te preocupes se não o conseguires e quiseres partir. Não te preocupes se me vires a chorar. Vou ficar sempre em paz contigo, unicamente porque me deixaste por um tempo acreditar de novo na minha capacidade de amar.”


José Micard Teixeira

12/10/2015

Não sei, amor ...


Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intimida em que me esqueces.
Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas
outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,
o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,

o princípio de sol que nos acabes.

Pedro Tamen

05/10/2015

Chove muito, chove excessivamente...


Chove muito, chove excessivamente...
Chove e de vez em quando faz um vento frio...
Estou triste, muito triste, como se o dia fosse eu.
Num dia no meu futuro em que chova assim também
E eu, à janela de repente me lembre do dia de hoje,
Pensarei eu «ah nesse tempo eu era mais feliz»
Ou pensarei «ah, que tempo triste foi aquele»!
Ah, meu Deus, eu que pensarei deste dia nesse dia
E o que serei, de que forma; o que me será o passado que é hoje só presente?...
O ar está mais desagasalhado, mais frio, mais triste
E há uma grande dúvida de chumbo no meu coração...

Álvaro de Campos


02/10/2015

Metade...



Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio;
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca;
Porque metade de mim é o que eu grito,
Mas a outra metade é silêncio...

Que a música que eu ouço ao longe
Seja linda, ainda que tristeza;
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante;
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade...

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece
E nem repetidas com fervor,
Apenas respeitadas como a única coisa que resta
A um homem inundado de sentimentos;
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo...

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço;
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada;
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão...

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo
Se torne ao menos suportável;
Que o espelho reflita em meu rosto
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância;
Porque metade de mim é a lembrança do que fui,
A outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais;
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço...

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
Porque metade de mim é plateia
E a outra metade é canção...

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade... também.

Osvaldo Montenegro


28/09/2015

De ti só quero o cheiro dos liláses...

De ti só quero o cheiro dos liláses
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes
De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz
De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias
De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

Rosa Lobato de Faria

27/09/2015

Se ao menos soubesses...


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade clandestina
quando as manhãs cheiravam a óleos e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas
como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos
para tocar os teus dedos,
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa

24/09/2015

Visitation


os ossos encheram-se de lodo e
eu comprei um albatroz empalhado
para te vigiar a alma - ao anoitecer
é com os dedos incendiados que enterro
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai
na fissura entre a máscara e o rosto
um lume maligno solta-se então das águas
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor
não há morte ou paixão
que esta cidade não conheça - mas o corpo
não se lembra de tudo - a noite ardendo
desperta o coração - este palácio de plâncton
e de fantasmas com asas de sombra
depois
talvez se ouça o canto quase límpido
do mundo - cinzas onde mergulho
para abrir o tempo e visitar tuas mãos
que a lucidez do amor escureceu


Al Berto

21/09/2015

Deixei contigo...



Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir a meu lado.

Nuno Júdice




19/09/2015

Ausência nua...


A noite é uma ausência nua
tão pura, tão profunda, tão solene,
que só o lembrar-me das coisas
é um acto de violência.
A cada esquina do escuro
espantalhos de silêncio,
com longos braços de mãos frias,
e urros suspeitados de susto gutural, aguardam.
E pelas guaritas do céu,
as estrelas fiscalizam a submissão universal
com o olho gigante dos polícias.
Em torno das casas
negros morcegos rondam
batendo asas de pano,
só sendo também ausência me poderei aguentar.
Vou dormir.


Vergílio Ferreira

18/09/2015

Que ninguém...


Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.


Fernando Namora

15/09/2015

Diz-me, por favor...

Diz-me por favor onde não estás
em que lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor, qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.

José Luís Borges


13/09/2015

Dia 100...


Um sítio especial é aquele onde tropeçámos um no outro. Ou
o lugar onde nos beijámos pela primeira vez. Ou aquele quarto
de hotel.
Um sítio especial é o útero. E o colo. E o berço. E a escola. E
a casa. E a casa do nosso melhor amigo. E o nosso bairro. E
a nossa rua. E o nosso café.
É também muito especial o sítio onde nada acontece. Ou a-
quele onde nunca estivemos. Ou simplesmente aquele que
não existe. Ou o que apenas existe na nossa imaginação. E
também o sítio que não conseguimos sequer imaginar.
E na verdade é especialíssimo o sítio onde não queremos estar.
E o que nos é indiferente. E aquele que nos magoa. E o
que não suportamos. E o que não gostaríamos que existisse.
Sítio verdadeiramente especial é o texto. Onde cabem todos
os sítios que são especiais. E os que, por não serem, o são.
E os que estão, ainda, para o ser.
Mas, de todos, o mais especial dos sítios é aquele onde, em
cada momento, nos encontramos. E onde sentimos fluir o
tempo e a vida. Aquele sítio onde todos temos de estar, sob
pena de não ser possível estar em sítio algum ou, não podendo
sair do mesmo sítio, estar em todos os sítios ao mesmo
tempo.

Joaquim Pessoa










12/09/2015

Agora eu era...

Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor
agora tu eras como o tempo
despido de dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente
lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor.

Valter Hugo Mãe

Sim, sou....

" Sim, sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar.
O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar."


Mia Couto

10/09/2015

Dia 35.


Devolve a luz que me roubaste. A luz da minha carne, da
minha cama, a luz que agora corre em incertos rumores.
De olhos absurdos, repara como a noite é a pele da minha
alma e como me visto com a recordação de outros dias.
Num altar de penumbra permanecem as minhas mãos, mas as preces são apenas a música do ar, minúsculos sons que se libertaram e que vão regressando à superfície dos objectos.
Devolve a luz que me roubaste. A luz que tinha o rio que
há em mim, a luz de mim, a luz que cantava nos meus versos. Essa luz merecida pelos meus braços, pelos meus
sentidos, pelas minhas palavras.
Devolve-a. Para que eu não tenha de encostar o rosto à
noite, e para que não sinta medo até amanhecer.
Devolve-a, porque o tempo é juiz desse teu roubo, e porque tudo é escuro na sua consciência.
Devolve-a, porque os dias se acabam quando acaba a luz.
Devolve-a, porque a humilhação e as lágrimas são troféus
que o escuro reclama. E porque prefiro, então, cegar os
olhos.
Por favor, devolve a luz que me roubaste.


Joaquim Pessoa

08/09/2015

A cidade não é um lugar...


"A cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória... a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim."


Mia Couto

06/09/2015

Tremo por ti...

Tremo por ti que és o meu único Amigo,
António!
Tenho imensas coisas que te dizer e não sei o que hei-de dizer, tão arreliada estou e tão sem cabeça para pensar a coisa mais insignificante deste mundo. Que linda noite, tu vais passar, Amigo querido! E eu? A pensar que a maldade e a estupidez desta vida que no nosso desgraçado país é um horror, me pode fazer o mal maior que a alguém se pode fazer. Tenho medo, tenho medo, meu amor. Este desassossego contínuo põe-me doente e faz-me doida.
Então eu hei-de passar a minha triste vida a tremer por ti? Eu tenho pouca sorte, e quando enfim encontro no meu caminho alguém que gosta de mim, por mim, como se deve gostar, que pensa na minha felicidade, no meu sossego, alguém que se digna ver que eu tenho alma a sentir, quando encontro enfim no mundo o que julgara não encontrar nunca, hei-de andar como o avarento a tremer pelo tesoiro que levou anos, uma vida inteira a conquistar e que lhe podem roubar num momento. Eu tenho pouca sorte! Que Deus tenha piedade de mim.
Quereria dizer-te muitas coisas mas nem sei o quê; só tenho vontade de chorar e de gritar desesperadamente, com a cabeça enterrada nas almofadas para ninguém me ouvir. Se tu não tivesses vindo hoje, o que seria de mim, toda esta imensa noite sem saber de ti. E quantas noites hei-de eu passar assim! É impossível que eu resista muitos anos à vida passada assim. Antes Deus me leve depressa, depressa, depressa. O que estás tu agora a fazer, amor? São quase 2 horas e estou ansiosa a querer ouvir não sei o quê, a querer escutar, a querer adivinhar o que lá fora se passa. Uma porta que se fecha, um cavalo que passa a galope, um grito, sobressaltam-me como se um perigo imenso me ameaçasse.
Amanhã, se isto estiver assim, se estiveres de prevenção, não vou ao teatro, com certeza. Como posso eu aturar aquilo? Para estar a aborrecer os outros, é melhor ficar em casa a tremer como uma pateta que sou. Mas eu tremo por ti que és o meu único amigo, que és o meu noivo, aquele que só pensa em mim e na felicidade de toda a minha vida. Em mim não me afadigo a pensar. Não há meio de morrer, de desaparecer por uma vez, bem coberta de terra, bem esquecida de todos. De ti, não. Sou má, perdoa-me. Tenho a certeza que me mandarias crisântemos brancos e rosas vermelhas que são minhas flores predilectas. Tenho a certeza que não me esquecerias. Mas tu não queres que eu fale nestas coisas, pois não? Falemos antes da nossa casinha, do nosso ninho que há-de ser como aquele de que falavam os rouxinóis:
"O nosso ninho é pequeno
Mas chega bem para dois."
Não é assim, meu amor? A propósito de casa, quero falar contigo para ver se te convém uma coisa que pensei e em que já falei aqui à Margarida. Amanhã te direi ou quando puder ser. Manda notícias, sim? Ama-te muito a tua Bela.

Florbela Espanca
 'Carta a António Guimarães (1920)'



04/09/2015

Moro em ti...

moro em ti, sabes?
Sou eu o lugar.
Demoro-me em ti.
Sou eu o tempo.


Manuel António Pina

02/09/2015

Gosto de...

Gosto de ver a Alvorada
Beijar os teus lábios quando ela nasce
Gosto das manhãs cinzentas de Verão
Gosto do calor do Sol de Inverno
Gosto do cheiro da Terra molhada
Gosto do barulho do Mar
Ah meu Amor
Fosse eu o Mar
Para mergulhares nas profundezas
dos meus tesouros
Boiares nas marés ternas
do meu abraço
Gosto da brisa leve do Vento
Gosto dos dias calmos
Gosto do Pôr-do-Sol
Gosto do silêncio da noite
Pudesse eu ser Estrela
Seria a tua Estrela da sorte
Bafejar-te no sorrir do luar
Apaixonado por ti
Gosto de adormecer em paz
Gosto de dormir nu, relaxado
Gosto de sonhar com a realidade
Gosto da companhia da Natureza
Escolho naturalmente o natural
Tu és a Natureza
Onde me entregarei para sempre
Preso a ti


Tó Marceneiro