Estivera a escrever desde o fio da madrugada. Não só porque
gosto e escrever quando toda a gente dorme, como tinha de entregar um original
na editora. No fio da madrugada, Deus também dorme, e eu não sou atormentado
pelo bem nem pelo mal. Escuto apenas, esse sininho longínquo, esse murmúrio
suave das memórias e das recordações, e a mão torna-se-me quente para a
escrita.
Mão quente, isso mesmo. Não é tépida nem fria: quente. As
ideias, então, fluem. Mas fluem sem pressa, não se atropelam umas às outras, e
às vezes eu sorrio mansamente com esse desfilar de ideias. Vai a caligrafia num
deslize, então. Vão as palavras felizes, e eu cheio de gozo e prazer vendo as
frases construindo-se a si mesmas, sem tropeções, sem se acastelarem.
Antes de começar o meu trabalho estivera por detrás de um
livro, e lia comovido a história de um velho que se apaixonava doidamente por
uma velha, no lar de velhos onde se encontravam.
As vigilantes haviam percebido os sobressaltos dos dois
corações antigos mas sem rugas, e decidiram, com inclemente severidade, afastar
os amados da voz dos seus sentimentos cálidos. Um para uma álea do pavilhão,
outro para um quarto longe. A história pretendia ser a aventura das
possibilidades. Mas não tinha final feliz: os dois velhos morriam de dor por se
não verem, e de espanto por não entenderem a crueldade medonha da situação a
que os obrigavam. Foi depois que comecei a escrever o original para a editora.
Uma coisa bem fugaz, sem compromisso; um texto que falava de
canções entoadas por um cego. Rematei o texto como se deixasse de estar
preocupado com um problema persistente. Acontece-me, quando trabalho com afã.
Meti-me no carro um pouco fatigado; olhos pandos da insónia, boca a saber a
oito séculos de história, membros pesados, todo o corpo latejante.
A Avenida de Roma era uma confusão de veículos. A manhã
estava muito clara, o sol era leve, pessoas moviam-se, de um lado para outro
lado, nos passeios, pareciam alheadas de tudo, puxadas pelas pernas e
encaminhadas para os seus destinos certos. E carros, carros e carros. No
interior, condutores nervosos. Alguns consultavam os relógios de pulso. Outros,
acendiam cigarros. Outros ainda buzinavam. Os semáforos pareciam loucos. E
carros, carros e carros. Marcha lenta, cada vez mais lenta. E as pessoas, na
lembrança de um dia que se perderia uma vez mais, nem sequer olhavam para as
coisas fortuitas: as pessoas, as faces das pessoas, mais pareciam objectos
tensos e lamentáveis. A vida, a avenida, as montras talvez tivessem deixado de
possuir aquele perfume vago, porém perfume, que costuma descarregar a tristeza
e desanuviar a melancolia.
Pensava, maciamente, nestes factos banais. Sou um homem
banal, embora decepcionado com esta época onde a solidariedade está
desempregada, e o susto de viver se transformou num pesadelo diário. Pensava e
guiava o carro com infinita paciência e extrema precaução. Eis senão quando de
uma das ruas transversais surge uma pata seguida de sete patinhos. A pata
conduziu os patinhos numa recta impecável. Espanto dos condutores de carros.
Travagens bruscas. Sem sequer virar a cabeça para os lados, com uma dignidade
altiva e uma presteza surpreendente, a pata desprezava, nitidamente, o mundo
dos homens que a rodeava e aos filhos.
De onde teriam vindo eles? Talvez das hortas minúsculas, das
quintinhas que ainda existem e resistem nas casas laterais à Avenida de Roma.
Talvez. Imaginava coisas e episódios. E a pata continuava a atravessar a
avenida, filhos atrás dela. A meio, parou brevemente; logo continuou a
destemida caminhada. Tudo parado. Tudo atónito. Finalmente as pessoas
descortinavam que, para além dos seus destinos certos, das suas angústias e
apoquentações, havia acontecimentos bonitos, cenas de difícil explicação que
ainda sucediam numa cidade virada para dentro do seu egoísmo.
A pata e os filhos atingiram o passeio. A pata olhou, então,
de um para outro lado. Escolheu o sítio certo para aonde ir com os filhos.
Certamente que escolheu o sítio certo. E os carros moveram-se de novo. E os
transeuntes regressaram aos seus trajectos. E todos tornaram a virar-se para
dentro do seu próprio egoísmo.
A Avenida de Roma, cheia de gente áspera, enervada, tensa,
ficara, porém, durante alguns momentos, repleta de uma trémula felicidade.
Daquela felicidade pequenina que é o nome da estrela que, afinal, nos faz ainda
andar por cá.
Baptista Bastos


Muito bonito, lindo conto. São esses pequenos instantes de beleza é que fazem a diferença do egoismo, da crueldade das grandes cidades. Ali, entre toda aquela bagunça humana, bichinhos seguiam sua rotina, nada a ver com os humanos.E falando em humanos, pobre dos velhinhos...
ResponderEliminarGrande abraço aqui do sul do Brasil. Escrita elegante!