Ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. Deixo
escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. Fecho os olhos, finjo o sono,
e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
A noite cheira a musgo molhado e a bolor. Excrementos de
aves acumularam-se na palma das mãos, sujam as linhas do destino e do coração.
Um pano de flanela resguarda da poeira os poucos brinquedos que resistiram às
mudanças de casa. A humidade manchou a memória.
Levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. O mar talvez se
aviste dali. Mas o mar só se torna nítido quando sonho, não se consegue avistar
da janela. Volto a deitar-me.
O mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da
casa, formando desérticas paisagens onde queimo os dedos, o tacto,
vagarosamente. Nos corredores já não é possível encontrar sinais de passos nem
de facas pelas paredes. Silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce ósseo da
casa. Lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos,
crescem como cabelos. O pólen das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou
quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol sujo de insónias e de
agonia.
Dentro e fora de casa, as sombras dos mortos esburacam a
terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permaneceram aqui.
Al Berto


Conheço muito pouco a obra.
ResponderEliminarTem poemas muito bons. Resto de bom domingo e obrigada pela visita. Bj
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