01/03/2015

Ignoro o mundo e a noite...



Ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. Deixo escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. Fecho os olhos, finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
A noite cheira a musgo molhado e a bolor. Excrementos de aves acumularam-se na palma das mãos, sujam as linhas do destino e do coração. Um pano de flanela resguarda da poeira os poucos brinquedos que resistiram às mudanças de casa. A humidade manchou a memória.
Levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. O mar talvez se aviste dali. Mas o mar só se torna nítido quando sonho, não se consegue avistar da janela. Volto a deitar-me.
O mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da casa, formando desérticas paisagens onde queimo os dedos, o tacto, vagarosamente. Nos corredores já não é possível encontrar sinais de passos nem de facas pelas paredes. Silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce ósseo da casa. Lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos, crescem como cabelos. O pólen das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol sujo de insónias e de agonia.
Dentro e fora de casa, as sombras dos mortos esburacam a terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permaneceram aqui.


Al Berto

2 comentários:

  1. Conheço muito pouco a obra.

    ResponderEliminar
  2. Tem poemas muito bons. Resto de bom domingo e obrigada pela visita. Bj

    ResponderEliminar