31/03/2015

Meditação...


Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de Castro


2 comentários:

  1. MARIA ADELAIDE,

    quanta sensualidade,verdadeira êxtase de sensibilidade à flor da pele e invulgar capacidade de provocar momentos deliciosos de múltiplas sensações e desejos.

    Obrigado,estou vivo!!!

    Aproveito para lembrar que temos postagem nova no nosso blog, HUMOR EM TEXTOS.

    Abração carioca.

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    Respostas
    1. Obrigada pelas palavras (como escreves bem!...), pela visita e pelo abração carioca!
      De volta, um abraço (ão) lisboeta.

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