25/03/2015

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!



Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!  Porque não vens de olhos enxutos  e não despes as mãos  de mágoas e de lutos!   Poque hás-de vir semimorta,  com ar macerado e de bruxedo,  e não despes os ritos, o cansaço,  e as lágrimas e os mitos e o medo!   Porque não vens natural  Como um corpo sadio que se entrega,  e não destranças os cabelos,  e não nimbas de luz a tua treva!   Poque hás-de vir com a cor da morte  - se a morte já temos nós!  Porque adormeces os gestos,  porque entristeces os versos,  e nos quebras os membros e a voz!   Porque é que vens adorada  por uma longa procissão de velas,  se eu estou à tua espera em cada estrada,  nu, inteiramente nu,  sem mistérios, sem luas e sem estrelas!   Ó noite eterna e velada,  senhora da tristeza, sê alegria!  Vem de outra maneira ou vai-te embora,  e deixa romper o dia!


 Eugênio de Andrade


2 comentários:

  1. Tem noites que são assim.. eternas tristezas regadas de sdd e lagrimas.

    bjokas =)

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