14/03/2015

Poema do Futuro



Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.


António Gedeão

4 comentários:

  1. Lindo texto,com uma foto brilhante!

    Beijo !!!

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  2. Bom dia, Adelaide
    Vi o teu ícon no meu painel de seguidores e, como sempre que aparece "uma cara nova"... vim corresponder (fazendo-me teu seguidor) e espreitei o conteúdo do blog.
    Gostei! Tems aqui "coisas" muito bonitas e interessantes.
    Sou fã de António Gedeão, por isso gostei demais deste último post.
    Aparece lá no «DEUSA» e deixa umas palavrinhas... vou ficar feliz de te ver lá.
    Óptimo Domingo
    Um beijo
    MIGUEL / ÉS A MINHA DEUSA

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  3. Qué bellas palabras. Te felicito por el blog. Un abrazo, Clara.

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  4. "Conscientemente escrevo e, consciente,
    medito o meu destino."
    Amei todo o poema e gosto muito de António Gedeão. Muito obrigada Adelaide, por se ter tornado seguidora do meu blog.
    Beijinho e muitos sorrisos
    Alice

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