31/01/2015

Poema de canção sobre a esperança...



Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também...
(...)

Álvaro de Campos

Nossas bocas...



Nossas bocas nunca
se perderam.
Só deixaram de
se encontrar com
hora marcada...
Não se pertenciam,
apenas se amavam...

A. Auer



29/01/2015

Aparição amorosa



Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto… o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platónica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.

Carlos Drummond de Andrade



27/01/2015

Deixei contigo o meu amor...


 Deixei contigo o meu amor,
 música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
 e o da vida por desapertar,
 a flor que secou nas páginas de um livro,
 tantas palavras por dizer
 e a pressa de chegar,
 com o azul do céu à saída.
 por entre cafés fechados e um por abrir.

 Mas trouxe comigo o teu amor,
 os murmúrios que o dizem quando os lembro,
 a surpresa de um brilho no olhar,
 brinco perdido em secreto campo,
 o remorso de partir ao chegar,
 e tudo descobrir de cada vez,
 mesmo que seja igual ao que vês
 neste caminho por encontrar
 em que só tu me consegues guiar.

 Por isso tenho tudo o que preciso
 mesmo que nada nos seja dado;
 e basta-me lembrar o teu sorriso
 para te sentir ao meu lado.


 Nuno Júdice

26/01/2015

Tu...


Tu acendes a chama 
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco

Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo

Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho

Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho


Maria Teresa Horta

25/01/2015

Caminho da manhã



Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco da cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles escorre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.
Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner Andresen


24/01/2015

Um trémulo instante de felicidade




Estivera a escrever desde o fio da madrugada. Não só porque gosto e escrever quando toda a gente dorme, como tinha de entregar um original na editora. No fio da madrugada, Deus também dorme, e eu não sou atormentado pelo bem nem pelo mal. Escuto apenas, esse sininho longínquo, esse murmúrio suave das memórias e das recordações, e a mão torna-se-me quente para a escrita.

Mão quente, isso mesmo. Não é tépida nem fria: quente. As ideias, então, fluem. Mas fluem sem pressa, não se atropelam umas às outras, e às vezes eu sorrio mansamente com esse desfilar de ideias. Vai a caligrafia num deslize, então. Vão as palavras felizes, e eu cheio de gozo e prazer vendo as frases construindo-se a si mesmas, sem tropeções, sem se acastelarem.

Antes de começar o meu trabalho estivera por detrás de um livro, e lia comovido a história de um velho que se apaixonava doidamente por uma velha, no lar de velhos onde se encontravam.

As vigilantes haviam percebido os sobressaltos dos dois corações antigos mas sem rugas, e decidiram, com inclemente severidade, afastar os amados da voz dos seus sentimentos cálidos. Um para uma álea do pavilhão, outro para um quarto longe. A história pretendia ser a aventura das possibilidades. Mas não tinha final feliz: os dois velhos morriam de dor por se não verem, e de espanto por não entenderem a crueldade medonha da situação a que os obrigavam. Foi depois que comecei a escrever o original para a editora.

Uma coisa bem fugaz, sem compromisso; um texto que falava de canções entoadas por um cego. Rematei o texto como se deixasse de estar preocupado com um problema persistente. Acontece-me, quando trabalho com afã. Meti-me no carro um pouco fatigado; olhos pandos da insónia, boca a saber a oito séculos de história, membros pesados, todo o corpo latejante.

A Avenida de Roma era uma confusão de veículos. A manhã estava muito clara, o sol era leve, pessoas moviam-se, de um lado para outro lado, nos passeios, pareciam alheadas de tudo, puxadas pelas pernas e encaminhadas para os seus destinos certos. E carros, carros e carros. No interior, condutores nervosos. Alguns consultavam os relógios de pulso. Outros, acendiam cigarros. Outros ainda buzinavam. Os semáforos pareciam loucos. E carros, carros e carros. Marcha lenta, cada vez mais lenta. E as pessoas, na lembrança de um dia que se perderia uma vez mais, nem sequer olhavam para as coisas fortuitas: as pessoas, as faces das pessoas, mais pareciam objectos tensos e lamentáveis. A vida, a avenida, as montras talvez tivessem deixado de possuir aquele perfume vago, porém perfume, que costuma descarregar a tristeza e desanuviar a melancolia.

Pensava, maciamente, nestes factos banais. Sou um homem banal, embora decepcionado com esta época onde a solidariedade está desempregada, e o susto de viver se transformou num pesadelo diário. Pensava e guiava o carro com infinita paciência e extrema precaução. Eis senão quando de uma das ruas transversais surge uma pata seguida de sete patinhos. A pata conduziu os patinhos numa recta impecável. Espanto dos condutores de carros. Travagens bruscas. Sem sequer virar a cabeça para os lados, com uma dignidade altiva e uma presteza surpreendente, a pata desprezava, nitidamente, o mundo dos homens que a rodeava e aos filhos.

De onde teriam vindo eles? Talvez das hortas minúsculas, das quintinhas que ainda existem e resistem nas casas laterais à Avenida de Roma. Talvez. Imaginava coisas e episódios. E a pata continuava a atravessar a avenida, filhos atrás dela. A meio, parou brevemente; logo continuou a destemida caminhada. Tudo parado. Tudo atónito. Finalmente as pessoas descortinavam que, para além dos seus destinos certos, das suas angústias e apoquentações, havia acontecimentos bonitos, cenas de difícil explicação que ainda sucediam numa cidade virada para dentro do seu egoísmo.

A pata e os filhos atingiram o passeio. A pata olhou, então, de um para outro lado. Escolheu o sítio certo para aonde ir com os filhos. Certamente que escolheu o sítio certo. E os carros moveram-se de novo. E os transeuntes regressaram aos seus trajectos. E todos tornaram a virar-se para dentro do seu próprio egoísmo.

A Avenida de Roma, cheia de gente áspera, enervada, tensa, ficara, porém, durante alguns momentos, repleta de uma trémula felicidade. Daquela felicidade pequenina que é o nome da estrela que, afinal, nos faz ainda andar por cá.


Baptista Bastos

23/01/2015

Esta Gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen
foto Mário Marzagão



22/01/2015

Vagarosamente...


«... Despi-a vagarosamente com os olhos, com as mãos, com os lábios. O sexo tinha a elevação de uma eira cheia de trigo queimado e um sendeiro cor de romã. Entrei por ela como um arado esgarçando a terra húmida e senti-lhe a pele por dentro, suave, como um forro de cetim no vestido da sua nudez… »


João Morgado

21/01/2015

Acreditei....





Toda a vida acreditei:
amor é os dois se duplicarem em UM.
Mas hoje sinto: ser um é ainda muito.
De mais.
Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada,
Ninguém no plural.

- Ninguéns. -

Mia Couto

18/01/2015

O dia da Criação




Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.

Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.


III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De facto, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente

Porque era sábado.

Vinicius dse Moraes

17/01/2015

Canção da tarde no campo



Caminho do campo verde
estrada depois de estrada.
Cerca de flores, palmeiras,
serra azul, água calada.

Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.

Meus pés vão pisando a terra
Que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a tarde é minha.

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua;
vou chegando, vai fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.

De tanto olhar para longe,
não vejo o que passa perto,
meu peito é puro deserto.
Subo monte, desço monte.

Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.


Cecília Meireles

16/01/2015

Prometo...



(…)
Prometo amar-te até ao limite, beijar-te até à ultima fronteira, correr quando bastava andar, saltar quando bastava correr, voar quando bastava saltar. Prometo abraçar-te com o interior dos ossos, percorrer-te a carne com a fome absoluta, e ir à procura do orgasmo todos os dias, a toda a hora, encontrar a felicidade no doce absurdo que nos soubermos destinar. Prometo falhar. Sem hesitar. Prometo ser humano, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar. E Deus te livre de não me prometeres o mesmo.
“Foste a maneira mais bonita de errar.”
(…)

Pedro Chagas Freitas



15/01/2015

O amor...



O amor não é um hábito,
um compromisso ou uma dívida.
O amor é. Sem definições.
Ame e não faça muitas perguntas.
Ame apenas.


Paulo Coelho

13/01/2015

Foste o meu passado...



Foste o meu passado
e serás o meu futuro
mesmo quando o futuro
já tiver acabado

O princípio e o termo
a luz e o escuro

quando o fim do presente
já tiver terminado

Maria Teresa Horta


12/01/2015

Tudo o que tenho...





Tudo o que tenho não tem posse:
o rio e suas ocultas fontes,
A nuvem grávida de Novembro,
O desaguar de um rio em tua boca.
Só me pertence o que não abraço.
Eis como ao eterno me condeno:
Amo o que não tem despedida


Mia Couto
Foto desconheço Autor

11/01/2015

O Estrela e a mulher...






Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por bater-lhes em cheio nas meninas dos olhos. Hoje um e logo a seguir o outro, tinham partido. Discretamente, disseram adeus àquelas quatro paredes, voltaram costas à realidade, e fecharam-se num recolhimento tão íntimo e tão persistente, que só mesmo no fundo duma sepultura. Deram-lha, então. Justamente os oito dias que durou essa mudança foram toldados. Perdido por terras distantes, nessa semana triste, o astro-rei esqueceu-se dos seus dois velhos amigos. Vinha agora bater-lhes novamente à porta. Infelizmente já não moravam ali.
- E novos ainda!... – ponderou, filosoficamente, a Berta.
- Ela sessenta e cinco, e ele sessenta e oito – precisou o Mamede, aferidor da Câmara.
- Exactamente… - confirmou o dono da casa.
Era na loja do Guerra, sapateiro. O Mamede viera saber dumas meias solas nas botas de caça; a Berta já lá estava a ver se os sapatos do homem podiam ser gaspeados; de maneira que sem darem conta encontraram-se a falar do acontecimento da semana – a morte do Estrela e da mulher.
A princípio, o que diziam avolumava apenas a sombra dos ausentes.
- Coitados!... Sem filhos, de mais a mais…
Mas pouco a pouco os mortos foram ressuscitados em cada palavra pronunciada. O poder mágico do verbo ia-os avivando nas lembranças apagadas, e todos eles, que nunca tinham pensado sequer que conheciam o Estrela e a mulher, se puseram a seguir-lhes, fascinados, os passos no mundo. Milagrosamente, viam-nos reais e palpáveis, a retomar a vida habitual, ali, no Largo da Graça.
Começou o Estrela por abrir a porta da barbearia. Era barbeiro, o Estrela. Acabavam justamente de bater as onze. Nunca saía do quarto antes. E o Amadeu, o alfaiate, que com a rosa dos alfinetes ao peito, a fita métrica ao pescoço, e uma letra vencida no bolso mourejava desde manhã cedo, não podia engolir serenamente semelhante ultraje. (…)
(…) O Estrela, esse, vestia a bata e chegava-se à porta.
- Então Deus nos dê muito bons dias!
Cumprimentava ao mesmo tempo o mundo e o seu grande amigalhaço, o Gil, latoeiro e vizinho.
- Vamos a ele, ou quê?
- Tem de ser…
Era o mata-bicho sacramental. Bastava-lhes dobrar a esquina. O Moreira parece que mandava fabricar aquela aguardente no céu. Um sinal, apenas, e os cálices apareciam cheios e perfumados sobre o balcão.
- À nossa!
- Cá vai…
Pagavam, saíam, e o taberneiro, com açúcar na urina, arrasado de bronquite, e guardado como um carneiro pela mulher, desabafava sozinho:
- Que estômagos! Que saúde! Que naturezas! Porcaria de mundo! (…)
(…)- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Barba?
- Barba e cabelo.
O violão, encostado à parede, pôs-se a mirar um canto do espelho.
- Pelos vistos, o senhor Estrela ainda lhe puxa pelo bordão!...
- Pouco. Só para matar saudades…Bons tempos! Tudo passa…
E o ano de 1896, o ano áureo do Estrela, começou a nascer na tarde morna.
- Custou-me a brincadeira oito dias à sombra. O malandro do sacristão! Era compadre dum polícia…Mas valeu a pena. O largo do Romal pareça o Terreiro do Paço. Talvez até mais bonito…
Quê?! O senhor Estrela conhecia o Terreiro do Paço?! A sério?! O Lucas, que nunca saíra da terra, parecia que estava diante dum milagre.
O Estrela teve um riso aberto de iluminado.
- Olha, olha, o Terreiro do Paço! Hã, ó Aninhas?
A D. Aninhas engrunhou-se um pouco, olhou um nadinha de lado, e começou a rir-se lá por dentro.
O Terreiro do Paço, a Mouraria, Cacilhas…Fechei o quiosque, e de comboio por aí a baixo foi o fim do mundo!
No rosto de ambos nem tudo agora eram sessenta e tantos de idade. Havia também a marca duma carícia funda da vida.
Mas a quê? A que tinham ido os dois a Lisboa?
Olharam-se ternamente, numa maliciosa cumplicidade.
- Hom’essa! (…)
(…)- Passear?!!!
- Pois!
Caladas, as moscas dançavam na sala cheia de quietude, espanto e silêncio. (…)
(…)- Passear!... – murmurou o Lucas, a remoer um pensamento fundo, de oficial de diligências.
- Olarilas! Por sinal que nos perdemos…Lembras-te, Aninhas?
- Se lembro!...
- Foi na rua… na rua… Ora deixa-me pensar… Rua do…
Mas a cabeça de ambos, nos últimos tempos, atraiçoava-os miseravelmente. Que, de resto, não era admiração nenhuma…já lá ia um par de anos…Mil novecentos e seis… Ou não? (…)
(…) Quantos dias nos demorámos ainda lá?
- Três…E se tínhamos ficado mais um, víamos o rei…
- É verdade!
- Qual?
Olharam-se ambos, numa ajuda mútua.
- Devia ser o D. Carlos… Ora em mil novecentos…
O ruído dos rodízios do relógio quebrou a data ao meio. As cinco horas vieram logo a seguir. (…)
(…) Bom homem, este Lucas! – disse por fim o Estrela, sem grande convicção.
- É…É… - repetiu, como um eco, a mulher.
A tarde caía docemente. O Estrela pegou no violão, sentou-se, e tirou dele um acorde que encheu a praça. Depois carregou a fundo na inspiração.

Se estou melhor das maleitas,
Se estou melhor das maleitas…

- Este bordão novo não presta. Ou então é do cavalete…
- Experimenta outro…
A voz dela, mansa, submissa, parecia ainda sair da loja fechada e triste.
Da sapataria via-se o largo inteiro; e, sem querer, olharam todos na direcção do 43.
- Uma verdadeira santa! – disse melancolicamente o Mamede. – Uma mulher assim faz a felicidade dum homem…
- Lá isso… - confessou, de consciência carregada, a Berta, que punha a alma negra ao marido. – Era o que o seu Manuel dissesse. Ninguém lhe conheceu outro querer. E a prova é que, apenas ele fechou os olhos, fechou os dela também. Não tinham mais que ver neste mundo.


Miguel Torga
foto desconheço Autor

10/01/2015

Devo, por isso, afastar-me de ti...


              
Esta noite o vento ceifa os bosques e
uma raiva sacode a terra. Se a voz
do mar chamasse pelas velas, os estreitos
aguardariam um naufrágio. E se dissesses
o meu nome eu morreria de amor.

Devo, por isso, afastar-me de ti – não
por ter medo de morrer (que é de já não
o ter que tenho medo), mas porque a chuva
que devora as esquinas é a única canção
que se ouve esta noite sobre o teu silêncio.

Maria do Rosário Pedreira
foto desconheço Autor


















É quando...



É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão- Ferreira
foto desconheço Autor


09/01/2015

Penso em ti no silêncio da noite...





Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.
Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.
Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio

E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.

Álvaro de Campos
foto desconheço Autor

08/01/2015

Foram Breves e Medonhas as Noites de Amor



foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração

Al Berto
Foto desconheço Autor



07/01/2015

Nocturnamente...



"Nocturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo

Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
na rouquidão da tua carne
me inicio
me anuncio
e me denuncio

Sabes agora para o que venho
e por isso me desconheces"


Mia Couto
foto desconheço Autor

06/01/2015

Dói-me a Vida aos poucos...




Estou num daqueles dias em que nunca tive futuro. Há só um presente imóvel com um muro de angústia em torno. A margem de lá do rio nunca, enquanto é a de lá, é a de cá, e é esta a razão intima de todo o meu sofrimento. Há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer, nem há desembarque onde se esqueça. Tudo isto aconteceu há muito tempo, mas a minha mágoa é mais antiga.
Em dias da alma como hoje eu sinto bem, em toda a consciência do meu corpo, que sou a criança triste em quem a vida bateu. Puseram-me a um canto de onde se ouve brincar. Sinto nas mãos o brinquedo partido que me deram por uma ironia de lata. Hoje, dia catorze de Março, às nove horas e dez da noite, a minha vida sabe a valer isto.
No jardim que entrevejo pelas janelas caladas do meu sequestro, atiraram com todos os balouços para cima dos ramos de onde pendem; estão enrolados muito alto, e assim nem a ideia de mim fugido pode, na minha imaginação, ter balouços para esquecer a hora.
Pouco mais ou menos isto, mas sem estilo, é o meu estado de alma neste momento. Como à veladora do «Marinheiro» ardem-me os olhos, de ter pensado em chorar. Dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se.
Se eu não estivesse escrevendo a você, teria que lhe jurar que esta carta é sincera, e que as cousas de nexo histérico que aí vão saíram espontâneas do que sinto. Mas você sentirá bem que esta tragédia irrepresentável é de uma realidade de cabide ou de chávena — cheia de aqui e de agora, e passando-se na minha alma como o verde nas folhas.
Foi por isto que o Príncipe não reinou. Esta frase é inteiramente absurda. Mas neste momento sinto que as frases absurdas dão uma grande vontade de chorar. Pode ser que se não deitar hoje esta carta no correio amanhã, relendo-a, me demore a copiá-la à máquina, para inserir frases e esgares dela no «Livro do Desassossego». Mas isso nada roubará à sinceridade com que a escrevo, nem à dolorosa inevitabilidade com que a sinto.


Fernando Pessoa
foto desconheço Autor

05/01/2015

Abraça-me...



Abraça-me. Quero ouvir o vento que vem da tua pele, e ver o sol nascer do intenso calor dos nossos corpos. Quando me perfumo assim, em ti, nada existe a não ser este relâmpago feliz, esta maçã azul que foi colhida na palidez de todos os caminhos, e que ambos mordemos para provar o sabor que tem a carne incandescente das estrelas. Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade, essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de amor. Dá-me a beber, antes, a água dos teus beijos, para que possa levá-la comigo e oferecê-la aos astros pequeninos.
Só essa água fará reconhecer o mais profundo, o mais intenso amor do universo, e eu quero que dele fiquem a saber até as estrelas mais antigas e brilhantes.
Abraça-me. Uma vez só. Uma vez mais.
Uma vez que nem sei se tu existes.


Joaquim Pessoa
foto desconheço Autor

04/01/2015

O Poema...



O poema me levará no tempo
Quando eu já não for eu
E passarei sozinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Como rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo
   
Sophia de Mello Breyner Andresen
foto desconheço Autor




03/01/2015

Sou eu que invento...



" Lhe concordo, doutor: sou eu que invento minhas doenças. Mas eu, velho e sozinho, o que posso fazer? Estar doente é a minha única maneira de provar que estou vivo. É por isso que frequento o hospital, vezes e vezes...[...] Mas nessa infinita fila de espera, me vem a ilusão de me vizinhar do mundo. Os doentes são a minha família, o hospital é o meu tecto e o senhor é o meu pai, pai de todos meus pais."

Mia Couto 
foto desconheço Autor

01/01/2015

Noites de sangue e de silêncio



Há noites que são feitas dos meus braços
E um silêncio comum às violetas.
E há sete luas que são sete traços
De sete noites que nunca foram feitas.
Há noites que levamos à cintura
Como um cinto de grandes borboletas.
E um risco a sangue na nossa carne escura
Duma espada à bainha dum comrta.
Há noites que nos deixam para trás
Enrolados no nosso desencanto
E cisnes brancos que só são iguais
À mais longínqua onda do seu canto.
Há noites que nos levam para onde
O fantasma de nós fica mais perto;
E é sempre a nossa voz que nos responde
E só o nosso nome estava certo.
Há noites que são lírios e são feras
E a nossa exactidão de rosa vil
Reconcilia no frio das esferas
Os astros que se olham de perfil.


Natália Correia
foto desconheço Autor