31/03/2015

Meditação...


Às vezes, quando a noite vem caindo,
Tranquilamente, sossegadamente,
Encosto-me à janela e vou seguindo
A curva melancólica do Poente.

Não quero a luz acesa. Na penumbra,
Pensa-se mais e pensa-se melhor.
A luz magoa os olhos e deslumbra,
E eu quero ver em mim, ó meu amor!

Para fazer exame de consciência
Quero silêncio, paz, recolhimento
Pois só assim, durante a tua ausência,
Consigo libertar o pensamento.

Procuro então aniquilar em mim,
A nefasta influência que domina
Os meus nervos cansados; mas por fim,
Reconheço que amar-te é minha sina.

Longe de ti atrevo-me a pensar
Nesse estranho rigor que me acorrenta:
E tenho a sensação do alto mar,
Numa noite selvagem de tormenta.

Tens no olhar magias de profeta
Que sabe ler no céu, no mar, nas brasas...
Adivinhas... Serei a borboleta
Que vendo a luz deixa queimar as asas.

No entanto — vê lá tu!— Eu não lamento
Esta vontade que se impõe à minha...
Nem me revolto... cedo ao encantamento...
— Escrava que não soube ser Rainha!

Fernanda de Castro


30/03/2015

Balada de sempre


Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas sebes e nas ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
- ânsia alada
no meu desejo imaginada
Mas
enquanto deixo a janela aberta
para entrares
o mar
aí além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes
algas de sonho
- e desenha ironias na areia molhada
  
Fernando Namora



29/03/2015

Olha....


Olha: eu queria saber em que parte
se morre, para ter uma flor e com ela
atravessar vozes leves e ardentes e crimes
sem roupa. Existe nas ilhas um silêncio para
a poeira tremer, e o teu rosto se voltar lentamente cheio
de febre para o lado de uma canção
terrível e fria.

 Herberto Helder

28/03/2015

O homem que não é ninguém... (Lisboa contada pelos dedos)



O rio está virado e a chuva cai a cântaros. É um dia repetitivo, sem remanso, sulcado de pequenos trechos de amargura, de minúsculas teias de angústia. Percorri com humildade o meu caminho diário, desempenhei com aplicação as tarefas que me foram destinadas, cigarro pendurado no beiço, olhos ardidos, por muitas letras lidas e escritas, e penso, agora, na utilidade inútil em que se transformam as palavras que escrevo. Quem me lê? Quem nos lê? Para quem escrevemos estas frases pensadas com rapidez, sinais e signos de ideias que malbaratamos?
E aí está, sobre a minha banca de trabalho onde se atafulham folhas normalizadas, papéis delidos, canetas, recados, preocupações e avisos – e aí está a fotografia. A fotografia é a de um homem que meia Lisboa conhece, que meia Lisboa negligencia, que meia Lisboa finge ignorar, por incúria, por indiferença. Talvez por egoísmo. Isso: egoísmo. Se há uma biografia para o egoísmo, há, certamente há, uma biologia do egoísmo; do nosso egoísmo colectivo.
O homem coberto de mantas de holandilha, sujo, imundo, sórdido, asqueroso, passeia o seu autismo numa caminhada apressada, sem tino nem destino. Por debaixo das mantas sujas um corpo que se entrevê esquelético, um sexo pendente que em vão procura tapar, pés com pústulas, mãos que parecem providas de grifos, cabelos enormes, desgrenhados. Olho a fotografia e penso: se vocês fazem questão de saber, também eu, durante uma semana, tentei descobrir ou adivinhar o passado, o presente e o futuro do homem que caminha sem parar, apossado de uma demência inquieta. Um homem infausto num tempo inclemente. Abordei-o meia dúzia de vezes. Ofereci-lhe dinheiro; até pão, adquirido na padaria do Celeiro, ali mesmo na Rua 1º de Dezembro, no final das Escadinhas do Duque. Nem me olhou, fê-lo de forma subtil, de soslaio, enviesada. Falei-lhe falas banais, impelido por uma solidariedade que a rotina da profissão e as marcas do tempo jamais conseguiram fazer recuar em mim. Estacou, primeiro; recomeçou a andar, logo-logo. Uma grave apreensão emergiu, de sobreleve, no rosto esquálido. Estacou de novo; virou-se para trás, examinou o homem grisalho, céptico e rugoso que se lhe dirigia. Disse-me:
- Eu não sou ninguém.
Não o disse assim, exactamente assim. A articulação sintáctica foi outra; mas o objectivo final era comunicar-me uma afirmação fantomática: eu não sou ninguém. Nem aflita, sequer, era a afirmação. Os olhos estavam amassados e as pálpebras pandas. Pessoas estugaram o passo, caminhando para os seus objectivos irretorquíveis e certos. Pessoas cujo nome também eu não sabia, cujas vidas eram também um enigma para mim, cujas missões e destinos teriam de estar assinalados por ausências, amores, encontros e desencontros. Insisti, preso a velhas reminiscências:
- Mas você tem um nome.
Mais uma afirmativa do que uma interrogação.
Recomeçou a passeata à toa, eu atrás dele, no varejo de uma história possível. Não há histórias possíveis. Todas as histórias são impossíveis desde o momento em que se possam contar. Parou de novo. Virou-se-me e chegou-se-me tão de perto que lhe senti o bafo morno, a respiração arfante:
- Não sou ninguém. Não tenho nome. Nunca tive nome. Quer dar-me um nome? Porque é que não me dá um nome? O seu, por exemplo?...
Tive vontade de lhe dizer que levo um ror de anos a tentar comunicar com os outros. Nada. Ninguém me liga nenhuma, porque eu, afinal, também não sou ninguém, e porque as palavras que escrevo, por incompetentes e inócuas, não encontram destinatários certos. Mas nada disso falei. Tive vontade de lhe dizer que, apesar de as minhas palavras se não repercutirem em nada, em alguém, em ninguém – eu tento, tento sempre, sempre tenho tentado. Estávamos em silêncio, os dois, cada vez mais perto um do outro e, simultaneamente, cada vez mais afastados um do outro. Na minha profissão aprendi a servir-me de qualificativos para os homens. Sei lá quais!; a este homem andrajoso e imundo que adjectivo aplicar?
Acaso este: só. Ah!, como eu só, como vocês, só; como vocês – todos sós. Sós, solitários, imundos de solidão e andrajosos a ratear ternuras. Um homem só é um homem deserdado. De repente, ele sorriu. Um sorriso claro, iluminado e lento como um ritual. E rematou:
- Tenho de ir à vida…


Baptista-Bastos

27/03/2015

Passei o Dia ouvindo o que o Mar dizia


Eu hontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Fallou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Poz-se a cantar
Um canto molhádo e lindo.

O seu halito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Elle afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De rôxo as aguas tingia.

«Voz do mar, mysteriosa;
Voz do amôr e da verdade!
- Ó voz moribunda e dôce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»
. . . . . . . . . . . . . . . .

E os poetas a cantar
São echos da voz do mar!


António Botto

25/03/2015

Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!



Ó noite, porque hás-de vir sempre molhada!  Porque não vens de olhos enxutos  e não despes as mãos  de mágoas e de lutos!   Poque hás-de vir semimorta,  com ar macerado e de bruxedo,  e não despes os ritos, o cansaço,  e as lágrimas e os mitos e o medo!   Porque não vens natural  Como um corpo sadio que se entrega,  e não destranças os cabelos,  e não nimbas de luz a tua treva!   Poque hás-de vir com a cor da morte  - se a morte já temos nós!  Porque adormeces os gestos,  porque entristeces os versos,  e nos quebras os membros e a voz!   Porque é que vens adorada  por uma longa procissão de velas,  se eu estou à tua espera em cada estrada,  nu, inteiramente nu,  sem mistérios, sem luas e sem estrelas!   Ó noite eterna e velada,  senhora da tristeza, sê alegria!  Vem de outra maneira ou vai-te embora,  e deixa romper o dia!


 Eugênio de Andrade


23/03/2015

Instrução primária


Não saibas: imagina...
Deixa falar o mestre, e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.

Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um a-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,

Aias da fantasia...

Miguel Torga

21/03/2015

Quando...


"Quando, nas despedidas da vida, nos parece que ficou, inevitavelmente, alguma coisa ou quase tudo por dizer, é bom pensar naquilo que o silêncio disse, ao longo do tempo, de coração a coração."


José Tolentino de Mendonça

20/03/2015

Partiste há um ano, meu Pai...



"É tão fácil comparar a vida a uma viagem. Faz tanto sentido.
Viagem ou vida, chegamos sempre aqui. Como se estivéssemos no alto de uma montanha, podemos olhar em volta. Aqui é o lugar onde tudo acontece. Há serenidade nesta certeza. Tens o dever livre de aproveitá-la.
Se estás a ler estas palavras é porque estás vivo.”


José Luís Peixoto

18/03/2015

Vazio...


E eu, pedaço de mim, neste dia 18 de Março e até ao fim da minha vida, continuarei a amar-te sempre mais um bocadinho, todos os dias...
 Com muita saudade, vives dentro de mim!

Um beijo meu até aí…
MA

17/03/2015

Saudades...


Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?... Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!


Florbela Espanca

15/03/2015

Nascer todas as manhãs...


Nascer Todas as Manhãs
Apesar da idade, não me acostumar à vida. Vivê-la até ao derradeiro suspiro de credo na boca. Sempre pela primeira vez, com a mesma apetência, o mesmo espanto, a mesma aflição. Não consentir que ela se banalize nos sentidos e no entendimento. Esquecer em cada poente o do dia anterior. Saborear os frutos do quotidiano sem ter o gosto deles na memória. Nascer todas as manhãs.


Miguel Torga

14/03/2015

Poema do Futuro



Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.


António Gedeão

13/03/2015

Alheamento...




Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.
O cigarro vago azulando os meus dedos.
O rádio... a música...
A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da música...
Ausência!, minha doce fuga!
Estranha coisa esta, a poesia,
que vai entornando mágoa nas horas
como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros
duma janela,
numa tarde vaga, vaga...


Fernando Namora

12/03/2015

Como é que se esquece alguém que se ama?



Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.


Miguel Esteves Cardoso

11/03/2015

Lê...

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
(...)

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, (...)

(...) e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por
todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste (...) e eu,
eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros

Maria do Rosário Pedreira



09/03/2015

Distância...



Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...

Fernanda de Castro
foto António Pereira

08/03/2015

Calçada de Carriche



Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda, Luísa.
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda, Luísa,
Luísa, sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.


António Gedeão

07/03/2015

A tua boca...


A tua boca declara guerra,
De língua desembainhada, sentencia a morte de todos os beijos,
Irreversíveis os que perdemos, eternos os que prometemos, mortos os que lastimamos.

A paixão persegue-me sem quartel,
E nada mais me resta que viver estropiado,
Quando nada mais se move no tempo que empresto, no amor que hipoteco,
Perdido o sustento ou o ofício de amar.

Que faço amanhã,
Se a renda que há meses não pago deixa o coração livre para
novos inquilinos,
Desconhecidos, outros que não nós?

Estou despido, fugindo do relento, procurando lugares escondidos dentro de nós.

Lambo as marcas da carne ferida. Não aprendi a evitar a tua pele de arame farpado.
Mas outra coisa não sei, cativo me declaro e rendo,
Revelo-te os segredos, o sexo na minha roupa.

Beija-me ou mata-me. Sem remédio, sem desculpas, esta noite extingo-me na tua cama.


Daniel Costa-Lourenço

06/03/2015

Dá-me lírios...



          
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


Álvaro de Campos

05/03/2015

Não contes...




Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

04/03/2015

Praia do Paraíso




Era a primeira vez que nus os nossos corpos
Apesar da penumbra à vontade se olhavam

Surpresos de saber que tinham tantos olhos
Que podiam ser luz de tantos candelabros

Era a primeira vez cerrados os estores
Só o rumor do mar permanecera em casa

E sabias a sal, e cheiravas a limos
Que tivesses ouvido o canto das cigarras

Havia mais que céu no céu do teu sorriso
Madrugada de tudo em tudo que sonhavas

Em teus braços tocar era tocar os ramos
Que estremecem ao sol desde que o mundo é mundo

É preciso afinal chegar aos cinquenta anos

Para se ver que aos vinte é que se teve tudo.

David Mourão Ferreira

03/03/2015

Como eu desejaria ser parte da noite...


"Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir..."


Álvaro de Campos

02/03/2015

Quando estiveres cansado...


"Quando estiveres cansado de olhar uma flor, uma criança, uma pedra, quando estiveres cansado ou distraído de ouvir um pássaro a explicar o ser, quando te não intrigar o existirem coisas e numa noite de céu limpo nenhuma estrela te dirigir a palavra, quando estiveres farto de saberes que existes e não souberes que existes, quando não reparares que nunca reparaste no azul do mar, quando estiveres farto de querer saber o que nunca saberás, se nunca o amanhecer amanheceu em ti ou já não, se nunca amaste a luz e só o que ela ilumina, se nunca nasceste por ti e não apenas pelos que te fizeram nascer, se nunca soubeste que existias mas apenas o que exististe com esse existir, quando, se -, porque temes então a morte, se já estás morto?"


Virgílio Ferreira

01/03/2015

Ignoro o mundo e a noite...



Ignoro o mundo e a noite que o envolve e devora. Deixo escoar o cansaço do corpo pela janela do quarto. Fecho os olhos, finjo o sono, e vou pelos lugares desabitados do meu corpo.
A noite cheira a musgo molhado e a bolor. Excrementos de aves acumularam-se na palma das mãos, sujam as linhas do destino e do coração. Um pano de flanela resguarda da poeira os poucos brinquedos que resistiram às mudanças de casa. A humidade manchou a memória.
Levanto-me da cama, arrasto-me até à janela. O mar talvez se aviste dali. Mas o mar só se torna nítido quando sonho, não se consegue avistar da janela. Volto a deitar-me.
O mar, o dos sonhos, depositou sal luminoso nos cantos da casa, formando desérticas paisagens onde queimo os dedos, o tacto, vagarosamente. Nos corredores já não é possível encontrar sinais de passos nem de facas pelas paredes. Silêncio com gumes de luz atravessa o alicerce ósseo da casa. Lá fora, os estames porosos dos hibiscos oferecem-se aos insectos, crescem como cabelos. O pólen das acácias embriaga quem se aproxima da casa, ou quem ousa lavrar as incertezas da noite num lençol sujo de insónias e de agonia.
Dentro e fora de casa, as sombras dos mortos esburacam a terra e os soalhos, colam-se aos corpos dos que permaneceram aqui.


Al Berto