28/06/2015

Escrevo-te a sentir tudo isto...



Escrevo-te a sentir tudo isto
E num instante de maior lucidez poderia ser o rio
As cabras escondendo
O delicado tilintar dos guizos
Nos sais de prata da fotografia
Poderia erguer-me como o castanheiro
Dos contos sussurrados junto ao fogo
E deambular trémulo com as aves
Ou acompanhar a sulfúrica borboleta
Revelando-se na saliva dos lábios
Poderia imitar aquele pastor
Ou confundir-me com o sonho de cidade
Que a pouco e pouco
Morde a sua imobilidade

Habito neste país de água por engano
São-me necessárias imagens radiografias de ossos
Rostos desfocados
Mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
Repara
Nada mais possuo
A não ser este recado que hoje segue manchado
De finos bagos de romã
Repara como o coração de papel amareleceu
No esquecimento de te amar

Al Berto



25/06/2015

Sem bússola, sem leme...



Cansada, exausta do labor insano
duma vida incolor, sem fantasia,
vou ver se encontro, noutro meridiano,
a emoção que desejo em cada dia.

Vou procurar, sem lógica sem plano,
um pouco de aventura, de alegria.
Não mais o miserável quotidiano,
antes o vendaval que a calmaria.

Antes dor... No barco em que navego,
sem bússola, sem leme, louco e cego,
vou procurar inexistentes rotas.

Ó meu veleiro doido, sem governo,
a caminho, talvez, do céu, do inferno,
sobre espumas e asas de gaivotas.



Fernanda de Castro

19/06/2015

Soneto antigo

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.



Cecília Meireles

16/06/2015

Não há silêncios...



Não há silêncios gravados nas paredes das casas habitadas pelos muros.
O vento sopra devagar, o sol aquece as velhas relíquias que um dia alimentaram o coração.
Não há silêncios nem distancias que me impeçam de chegar.


São Gonçalves

09/06/2015

Alegria é este pássaro que voa...

"Alegria é este pássaro que voa
da minha boca à tua. É este beijo.
É ter-te nos meus braços toda nua.
Sentir-me vivo. E morto de desejo.

Alegria é este orgasmo. Esta loucura
de estar dentro de ti. E assim ficar.
Como se andasse perdido e à procura
de possuir-te.
E possuir-te devagar..."

Joaquim Pessoa

07/06/2015

Não digas nada...

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.


Maria do Rosário Pedreira

04/06/2015

Amor sem trégua...


É necessário amar,
Qualquer coisa, ou alguém;
O que interessa é gostar
Não importa de quem.

Não importa de quem,
Nem importa de quê;
O que interessa é amar
Mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
Uma pedra, uma flor,
Uma coisa qualquer,
Seja lá do que for.

Pode até nem ser nada
Em que ser se concretize,
Coisa apenas pensada,
Que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
Sem dever a cumprir;
Uma oportunidade
Para olhar e sorrir.

Amar como o homem forte
Só ele o sabe e pode-o;
Amar até à morte,
Amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
Quando o clima é de horror,
É forma inteligente
De se morrer de amor.

António Gedeão

03/06/2015

O beijo...




Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neill

02/06/2015

Não te chamo para te conhecer...


"Não te chamo para te conhecer
Eu quero abrir os braços e sentir-te
Como a vela de um barco sente o vento
Não te chamo para te conhecer
Conheço tudo à força de não ser
Peço-te que venhas e me dês
Um pouco de ti mesmo onde eu habite"


Sophia de Mello Breyner Andresen