28/09/2015

De ti só quero o cheiro dos liláses...

De ti só quero o cheiro dos liláses
e a sedução das coisas que não dizes
De ti só quero os gestos que não fazes
e a tua voz de sombras e matizes
De ti só quero o riso que não ouço
quando não digo os versos que compus
De ti só quero a veia do pescoço
vampira que já sou da tua luz
De ti só quero as rosas amarelas
que há nos teus olhos cor das ventanias
De ti só quero um sopro nas janelas
da casa abandonada dos meus dias
De ti só quero o eco do teu nome
e um gosto que não sei de mar e mel
De ti só quero o pão da minha fome
mendiga que já sou da tua pele.

Rosa Lobato de Faria

27/09/2015

Se ao menos soubesses...


Se ao menos soubesses tudo o que eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos como quem beija
e não partisses, assim, empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado de segredos;
se ao menos percebesses que eram nossos
todos os bancos de todos os jardins;
se ao menos guardasses nos teus gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade clandestina
quando as manhãs cheiravam a óleos e a flores
e o inverno espreitava ainda nas esquinas
como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as minhas mãos
para tocar os teus dedos,
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no meu rosto
e a minha boca lembra a tua despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.

Joaquim Pessoa

24/09/2015

Visitation


os ossos encheram-se de lodo e
eu comprei um albatroz empalhado
para te vigiar a alma - ao anoitecer
é com os dedos incendiados que enterro
os dias - esta poeira brilhante
que se desprende dos cedros e cai
na fissura entre a máscara e o rosto
um lume maligno solta-se então das águas
a pele adquire o sabor do estuque e do bolor
não há morte ou paixão
que esta cidade não conheça - mas o corpo
não se lembra de tudo - a noite ardendo
desperta o coração - este palácio de plâncton
e de fantasmas com asas de sombra
depois
talvez se ouça o canto quase límpido
do mundo - cinzas onde mergulho
para abrir o tempo e visitar tuas mãos
que a lucidez do amor escureceu


Al Berto

21/09/2015

Deixei contigo...



Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir a meu lado.

Nuno Júdice




19/09/2015

Ausência nua...


A noite é uma ausência nua
tão pura, tão profunda, tão solene,
que só o lembrar-me das coisas
é um acto de violência.
A cada esquina do escuro
espantalhos de silêncio,
com longos braços de mãos frias,
e urros suspeitados de susto gutural, aguardam.
E pelas guaritas do céu,
as estrelas fiscalizam a submissão universal
com o olho gigante dos polícias.
Em torno das casas
negros morcegos rondam
batendo asas de pano,
só sendo também ausência me poderei aguentar.
Vou dormir.


Vergílio Ferreira

18/09/2015

Que ninguém...


Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao
mundo.
Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não o afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.


Fernando Namora

15/09/2015

Diz-me, por favor...

Diz-me por favor onde não estás
em que lugar posso não te ver,
onde posso dormir sem te lembrar
e onde relembrar sem que me doa.

Diz-me por favor onde posso caminhar
sem encontrar tuas pegadas,
onde posso correr sem que te veja
e onde descansar com a minha tristeza.

Diz-me por favor qual é o céu
que não tem o calor do teu olhar
e qual sol que tem luz apenas
e não a sensação de que me chamas.

Diz-me por favor qual é o lugar
em que não deixaste a tua presença.
Diz-me por favor onde no meu travesseiro
não tem escondida uma lembrança tua.

Diz-me por favor, qual é a noite
em que não virás velar meus sonhos.
Que não posso viver porque te espero
e não posso morrer porque te amo.

José Luís Borges


13/09/2015

Dia 100...


Um sítio especial é aquele onde tropeçámos um no outro. Ou
o lugar onde nos beijámos pela primeira vez. Ou aquele quarto
de hotel.
Um sítio especial é o útero. E o colo. E o berço. E a escola. E
a casa. E a casa do nosso melhor amigo. E o nosso bairro. E
a nossa rua. E o nosso café.
É também muito especial o sítio onde nada acontece. Ou a-
quele onde nunca estivemos. Ou simplesmente aquele que
não existe. Ou o que apenas existe na nossa imaginação. E
também o sítio que não conseguimos sequer imaginar.
E na verdade é especialíssimo o sítio onde não queremos estar.
E o que nos é indiferente. E aquele que nos magoa. E o
que não suportamos. E o que não gostaríamos que existisse.
Sítio verdadeiramente especial é o texto. Onde cabem todos
os sítios que são especiais. E os que, por não serem, o são.
E os que estão, ainda, para o ser.
Mas, de todos, o mais especial dos sítios é aquele onde, em
cada momento, nos encontramos. E onde sentimos fluir o
tempo e a vida. Aquele sítio onde todos temos de estar, sob
pena de não ser possível estar em sítio algum ou, não podendo
sair do mesmo sítio, estar em todos os sítios ao mesmo
tempo.

Joaquim Pessoa










12/09/2015

Agora eu era...

Agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor
agora tu eras como o tempo
despido de dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente
lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor.

Valter Hugo Mãe

Sim, sou....

" Sim, sou a mulher a quem, certa vez, na ponta dos dedos, foi oferecido o mar.
O resto é a minha eternidade contra a história. Pois nunca existiu homem nenhum que me tivesse amado e empreendesse, alguma vez, viagem alguma para além deste lugar."


Mia Couto

10/09/2015

Dia 35.


Devolve a luz que me roubaste. A luz da minha carne, da
minha cama, a luz que agora corre em incertos rumores.
De olhos absurdos, repara como a noite é a pele da minha
alma e como me visto com a recordação de outros dias.
Num altar de penumbra permanecem as minhas mãos, mas as preces são apenas a música do ar, minúsculos sons que se libertaram e que vão regressando à superfície dos objectos.
Devolve a luz que me roubaste. A luz que tinha o rio que
há em mim, a luz de mim, a luz que cantava nos meus versos. Essa luz merecida pelos meus braços, pelos meus
sentidos, pelas minhas palavras.
Devolve-a. Para que eu não tenha de encostar o rosto à
noite, e para que não sinta medo até amanhecer.
Devolve-a, porque o tempo é juiz desse teu roubo, e porque tudo é escuro na sua consciência.
Devolve-a, porque os dias se acabam quando acaba a luz.
Devolve-a, porque a humilhação e as lágrimas são troféus
que o escuro reclama. E porque prefiro, então, cegar os
olhos.
Por favor, devolve a luz que me roubaste.


Joaquim Pessoa

08/09/2015

A cidade não é um lugar...


"A cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida, um chão para a memória... a cidade em que nasci estava destinada a nascer de mim."


Mia Couto

06/09/2015

Tremo por ti...

Tremo por ti que és o meu único Amigo,
António!
Tenho imensas coisas que te dizer e não sei o que hei-de dizer, tão arreliada estou e tão sem cabeça para pensar a coisa mais insignificante deste mundo. Que linda noite, tu vais passar, Amigo querido! E eu? A pensar que a maldade e a estupidez desta vida que no nosso desgraçado país é um horror, me pode fazer o mal maior que a alguém se pode fazer. Tenho medo, tenho medo, meu amor. Este desassossego contínuo põe-me doente e faz-me doida.
Então eu hei-de passar a minha triste vida a tremer por ti? Eu tenho pouca sorte, e quando enfim encontro no meu caminho alguém que gosta de mim, por mim, como se deve gostar, que pensa na minha felicidade, no meu sossego, alguém que se digna ver que eu tenho alma a sentir, quando encontro enfim no mundo o que julgara não encontrar nunca, hei-de andar como o avarento a tremer pelo tesoiro que levou anos, uma vida inteira a conquistar e que lhe podem roubar num momento. Eu tenho pouca sorte! Que Deus tenha piedade de mim.
Quereria dizer-te muitas coisas mas nem sei o quê; só tenho vontade de chorar e de gritar desesperadamente, com a cabeça enterrada nas almofadas para ninguém me ouvir. Se tu não tivesses vindo hoje, o que seria de mim, toda esta imensa noite sem saber de ti. E quantas noites hei-de eu passar assim! É impossível que eu resista muitos anos à vida passada assim. Antes Deus me leve depressa, depressa, depressa. O que estás tu agora a fazer, amor? São quase 2 horas e estou ansiosa a querer ouvir não sei o quê, a querer escutar, a querer adivinhar o que lá fora se passa. Uma porta que se fecha, um cavalo que passa a galope, um grito, sobressaltam-me como se um perigo imenso me ameaçasse.
Amanhã, se isto estiver assim, se estiveres de prevenção, não vou ao teatro, com certeza. Como posso eu aturar aquilo? Para estar a aborrecer os outros, é melhor ficar em casa a tremer como uma pateta que sou. Mas eu tremo por ti que és o meu único amigo, que és o meu noivo, aquele que só pensa em mim e na felicidade de toda a minha vida. Em mim não me afadigo a pensar. Não há meio de morrer, de desaparecer por uma vez, bem coberta de terra, bem esquecida de todos. De ti, não. Sou má, perdoa-me. Tenho a certeza que me mandarias crisântemos brancos e rosas vermelhas que são minhas flores predilectas. Tenho a certeza que não me esquecerias. Mas tu não queres que eu fale nestas coisas, pois não? Falemos antes da nossa casinha, do nosso ninho que há-de ser como aquele de que falavam os rouxinóis:
"O nosso ninho é pequeno
Mas chega bem para dois."
Não é assim, meu amor? A propósito de casa, quero falar contigo para ver se te convém uma coisa que pensei e em que já falei aqui à Margarida. Amanhã te direi ou quando puder ser. Manda notícias, sim? Ama-te muito a tua Bela.

Florbela Espanca
 'Carta a António Guimarães (1920)'



04/09/2015

Moro em ti...

moro em ti, sabes?
Sou eu o lugar.
Demoro-me em ti.
Sou eu o tempo.


Manuel António Pina

02/09/2015

Gosto de...

Gosto de ver a Alvorada
Beijar os teus lábios quando ela nasce
Gosto das manhãs cinzentas de Verão
Gosto do calor do Sol de Inverno
Gosto do cheiro da Terra molhada
Gosto do barulho do Mar
Ah meu Amor
Fosse eu o Mar
Para mergulhares nas profundezas
dos meus tesouros
Boiares nas marés ternas
do meu abraço
Gosto da brisa leve do Vento
Gosto dos dias calmos
Gosto do Pôr-do-Sol
Gosto do silêncio da noite
Pudesse eu ser Estrela
Seria a tua Estrela da sorte
Bafejar-te no sorrir do luar
Apaixonado por ti
Gosto de adormecer em paz
Gosto de dormir nu, relaxado
Gosto de sonhar com a realidade
Gosto da companhia da Natureza
Escolho naturalmente o natural
Tu és a Natureza
Onde me entregarei para sempre
Preso a ti


Tó Marceneiro