.(...)
– Aguenta-te
que de facto é a única coisa que
se pode dizer. E eu tento aguentar, fingir que aguento quando sinto que me
desmorono dentro de mim. Há sempre uma parede ou outra, ou um bocado de parede,
que resiste e encosto-me a ela pensando
– Quando é que irá cair, quando
é que irá cair?
Talvez caia, talvez não. E, se
não cai, conseguiremos levantar de novo tudo o resto? Ou uma parte do resto? Ou
um resto do resto? Amanhar uma espécie de tecto? Ou sentar-me no chão, ao lado
das pedras, sem olhar para elas? Sentir que me desmoronei também, me tornei uma
ruína igualmente?
(…)
– Aguenta-te
comigo a tentar agrupar-me,
juntar-me todo, defender--me, proteger o que sou, o que teima em existir de mim
e que não sei se me pertence ou está para ali como um velho retrato desfocado,
do qual se não distinguem bem as feições. Torno-me uma pequenina coisa informe
algures no meu corpo, torno-me um pingo de nada em silêncio, porém um silêncio
que grita embora nem eu mesmo o oiça. Apercebo- -me que grita apenas porque os
meus ossos vibram, reduzidos a fios. Vida, vida, quanto tempo duras tu de
facto? Prolongas--te por abril, maio, junho, julho, agosto, até ao setembro dos
meus anos? As marés do equinócio a que eu assistia da muralha sobre a praia, as
ondas que à noite, em criança, escutava da cama, no escuro, numa fúria teimosa,
misturada com a inquietação dos pinheiros. Onde se escondem os melros à noite?
Na garagem? No canavial? A repetirem
– Aguenta-te ?
(…)
António Lobo Antunes

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