30/09/2016

Sabe-me a boca a nada...

Sabe-me a boca a sombra.
Bebi a madrugada porque ela me deslumbra.
Matei a minha sede. Esqueci a minha fome.
Soletrei as sílabas molhadas do teu nome.
E os pássaros que adejavam a luz do teu sorriso
eram mais, muito mais do que é preciso
para aninhar na minha carne a tua história,
rainha das perguntas, princesa da memória.
Um dia hei-de servir-te palavras divertidas
e colherei de um campo verde margaridas.
Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas
que cobrirei depois com essas flores brancas.
Farei muito amor contigo até de madrugada,
até que a boca saiba a sombra e saiba a nada.
E tudo há-de depois recomeçar do zero.
Beberei de novo a madrugada em desespero,
mas antes, gravarei, num dia como este,
o meu e o teu nome na casca de um cipreste
para que fique nesse tronco assinalado
que o futuro tem presente e tem passado.
E então, minha rainha, princesa, meu amor,
já podemos ir desta pra melhor.

Joaquim Pessoa

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