18/07/2017

Às vezes, olhar dói...

Às vezes, olhar dói. E como dói olhar os inquiridores
deste processo inquisitório a que chamas vida.
Olha-me bem nos olhos. Olha, sem paixão, no fundo
dos meus olhos, e que vês? Apenas um homem que se orgulha
da sua espinha dorsal. Subversivamente amante do amor,
despudoradamente amigo dos amigos, como se vivesse
com todos na mesma casa. Um ser inquieto por tanta
quietude. Um animal metido à força num filme
de aventuras, personagem literário plantado num campo
de golfe, convertido em mera verbalidade.
Segura as minhas mãos. Sente-as. Não vamos conversar
sobre literatura, somos donos de nós, é sobre coisas
velhas que vamos construir todas as coisas novas
das nossas vidas. Cada história é um poço de pequenas
histórias. Tentemos a normalidade. As pessoas normais
nunca sabem que o são e as anormais não têm
consciência de o ser. Por isso nos resta o olhar.
Viaja então por dentro do meu corpo, percorre
as florestas e as praias que há em mim, navega
este bocado de distância. Para o fazeres, basta
respirar. Só ver para lá do amor

é de todo impossível.

Joaquim Pessoa

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