26/08/2017

...da solidão

Nem aqui nem ali: em parte alguma.
Não é este ou aquele lugar.
Desço à praia,mergulho as mãos no mar,
mas do mar,nos meus dedos,fica a espuma.

Meu jardim,minha cerca,meu pomar.
Perpassa a Ideia e mói,como verruma.
Falar mas para quê?só por falar?
Já nada quer dizer coisa nenhuma.

Os instintos à solta,como feras,
e eu a pensar em velhas Primaveras,
no antigo sortilégio das palavras.

Agora é tudo igual,prazer e dor,
e a tua sementeira não dá flor,
ó triste solidão que as almas lavras.

Fernanda de Castro




24/08/2017

A inutilidade da perfeição

Fomos adultos antes do tempo.
 Ontem senti a tua falta. Mais uma vez a tua falta. Estava uma menina a brincar no jardim e eu quis dizer-te que podia muito bem ser a nossa.
(…)
Uma menina com a tua cara de anjo e essa cabeça linda. De mim herdaria a responsabilidade. Só espero que não herdasse o orgulho. O canalha do orgulho.
   Há uma pessoa a mais num casal quando existe o orgulho a separá-lo.
   Podia ligar-te e dizer-te que sim. Que tinhas razão. Tinhas sempre razão. A dona da verdade. E tinhas. A verdade é que tinhas. E eu sempre neste braço-de-ferro em que ambos perdíamos. Em que ambos nos perdemos.
   Há um casal que se dobra a cada braço-de-ferro que se faz.
   Podia falar-te das noites que nunca acabam. São sempre as noites, não é? De dia há pessoas, o emprego (a Joana da recepção fala todos os dias de ti, quer saber como estás e eu só lhe digo que estarás bem, estarás certamente bem, é pelo menos nisso que quero acreditar, ou se calhar não, se calhar quero acreditar que não estás bem como eu não estou bem, como se pode estar bem quando se chega a casa e tu não estás?), a luz ainda vai ajudando a tapar a sombra que ficou de mim, depois alguém conta uma piada, outra revela um segredo, e a vida vai andando. Que ironia, não é? Eu, que nunca quis ir andando, que sempre recusei o que todos os outros tinham (“ai de nós se caímos na rotina, quando isso acontecer mata-nos imediatamente, por favor”; e tu mataste, e tu mataste), a contentar-me com este mais ou menos feliz, este mais ou menos vivo.
   Há um menos a mais em cada mais ou menos que se vive.
   Mas depois chega a noite, como te dizia. A noite não passa. E estende-se. Ocupa-me.
   (…)
   Éramos tão felizes, não éramos? Resta-me continuar, apenas isso. Acreditar que um dia percebes que só nos faltou esquecer a maturidade.
   Há razão a mais quando um casal se esquece de por vezes perder a razão.
   Fomos adultos antes de tempo, crianças armadas em sérias, meninos a brincar ao casamento. E o orgulho. Já te falei nele? Vou falar-te de novo. Vou explicar-to outra vez. Basta que me atendas o telefone. Só mais uma vez, vá.

Pedro Chagas Freitas


08/08/2017

Pergunta-me

Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

Pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo
a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer.


Mia Couto

02/08/2017

Cul de lampe


Pouco a pouco,
Sem que qualquer coisa me falte,
Sem que qualquer coisa me sobre,
Sem que qualquer coisa esteja exactamente na mesma posição,
Vou andando parado,
Vou vivendo morrendo,
Vou sendo eu através de uma quantidade de gente sem ser.
Vou sendo tudo menos eu.
Acabei.
Pouco a pouco,
Sem que ninguém me falasse
(Que importa tudo quanto me tem sido dito na vida?),
Sem que ninguém me escutasse
(Que importa quanto disse e me ouviram dizer?)
Sem que ninguém me quisesse
(Que importa o que disse quem me disse que queria?),
Muito bem...
Pouco a pouco,
Sem nada disso,
Sem nada que não seja isso,
Vou parando,
Vou parar,
Acabei.
Qual acabei!
Estou farto de sentir e de fingir em pensar,
E não acabei ainda.
Ainda estou a escrever versos.
Ainda estou a escrever.
Ainda estou.
(Não, não vou acabar
Ainda...
Não vou acabar.
Acabei.)
Subitamente, na rua transversal, uma janela no alto e que vulto nela?
E o horror de ter perdido a infância em que ali não estive
E o caminho vagabundo da minha consciência inexequível.
Que mais querem? Acabei.
Nem falta o canário da vizinha ó manhã de outro tempo,
Nem som (cheio de cesto) do padeiro na escada
Nem os pregões que não sei já onde estão —
Nem o enterro (ouço as vozes) na rua,
Nem trovão súbito da madeira das tabuinhas de defronte no ar de verão
Nem... quanta coisa, quanta alma, quanto irreparável!
Afinal, agora tudo cocaína...
Meu amor infância!
Meu passado bibe!
Meu repouso pão com manteiga boa à janela!
Basta, que já estou cego para o que vejo!
Arre, acabei!
Basta!

Álvaro de Campos