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04/08/2013

Vida...



 

 sensualíssima mulher de carnes maravilhosas
 cujos passos são horas
 cadenciadas
 rítmicas
 fatais.
 A cada movimento do teu corpo
 dispersam asas de desejos
que me roçam a pele

e encrespam os nervos na alucinação do «nunca mais

Vou seguindo teus passos
 lutando e sofrendo
 cantando e chorando
 e ficam abertos meus braços:
 nunca te alcanço!
 Meu suplício de Tântalo.
 Envelheço...
 E tu, Vida, cada vez mais viçosa
 na oscilação nervosa
 das tuas ancas fecundas e sempre virgens!
 À punhalada dilacero a folhagem
 e abro clareiras
 na floresta milenária do meu caminho.
 Humildemente se rasga e avilta
 no roçar dos espinhos
 minha carne dorida.
 E quando julgo chegada a hora
 meu abraço de posse fica escancarado no ar!
 Olímpica
 firme
 gloriosa
 tu passas e não te alcanço, Vida.
 Caio suado de borco
 no lodo...
 O vento da noite badala nos ramos
 sarcasmos canalhas.
Não avisto a vida!
 Tenho medo, grito.
 Creio em Deus e nos fantásticos ecos
 do meu grito
 que vêm de longe e de perto
 do sul e do norte
 que me envolvem
 e esmagam:
— maldita selva, maldita selva,
 antes o deserto, a sede e a morte!

Manuel da Fonseca, in "Rosa dos Ventos"

18/06/2010

Olhando o mar, sonho sem ter de quê



Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!
De que me servem a verdade e a fé?

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, estar em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta.

Se tive amores? Já não sei se os tive.
Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas. Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

Fernando Pessoa

22/05/2010

Poema Melancólico a não sei que Mulher



Dei-te os dias, as horas e os minutos
Destes anos de vida que passaram;
Nos meus versos ficaram
Imagens que são máscaras anónimas
Do teu rosto proibido;
A fome insatisfeita que senti
Era de ti,
Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,
Conto as desilusões no rol do coração,
Recordo o pesadelo dos desejos,
Olho o deserto humano desolado,
E pergunto porquê, por que razão
Nas dunas do teu peito o vento passa
Sem tropeçar na graça
Do mais leve sinal da minha mão...

Miguel Torga