Deixei
de atravessar as noites, há muito,
como
quem atravessa as ruas, sem olhar,
com a
pressa dos olhos colada ao rasante
voo
das pombas sobre as tílias, sobre as casas.
Agora
meço as palavras e os passos,
meço
o fragor dos dias como se medisse
a
minha parca dimensão ao rés das estrelas.
Multipliquei-me
em tantas páginas
que
tudo dizendo a meu respeito
nada
dizem sobre mim, fingidas e densas
como
os livros da loucura da infância.
Digo
bem, dos livros. É neles que me resumo,
tragicamente,
porque nenhum me esgota,
porque
deixo que me cerquem, vorazes,
com o
seu saber circular e ondulante.
Quando
me vejo agora ditado na cama, nas camas
da
minha angústia adormecida e vaga,
o que
eu vejo é sombra e não a luz
é o
sarcasmo e não a festa. É o fel.
Sento-me
na soleira da porta, arquejante,
a ver
alguém que passa fingindo ser eu.
José
Jorge Letria


