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09/03/2016

Vieste como um barco carregado de vento...



Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


Maria do Rosário Pedreira

03/03/2015

Como eu desejaria ser parte da noite...


"Como eu desejaria ser parte da noite,
Parte sem contornos da noite, um lugar qualquer no espaço
Não propriamente um lugar, por não ter posição nem contornos,
Mas noite na noite, uma parte dela, pertencendo-lhe por todos os lados
E unido e afastado companheiro da minha ausência de existir..."


Álvaro de Campos

11/01/2015

O Estrela e a mulher...






Como de costume, às oito, o sol começou a entrar pelo quarto dentro. Mas já não pôde, à semelhança das mais vezes, descer do peitoril da janela, inundar o soalho, subir à cama, devorar pouco a pouco a colcha branca, incendiar um naco do cobertor vermelho, e acabar por bater-lhes em cheio nas meninas dos olhos. Hoje um e logo a seguir o outro, tinham partido. Discretamente, disseram adeus àquelas quatro paredes, voltaram costas à realidade, e fecharam-se num recolhimento tão íntimo e tão persistente, que só mesmo no fundo duma sepultura. Deram-lha, então. Justamente os oito dias que durou essa mudança foram toldados. Perdido por terras distantes, nessa semana triste, o astro-rei esqueceu-se dos seus dois velhos amigos. Vinha agora bater-lhes novamente à porta. Infelizmente já não moravam ali.
- E novos ainda!... – ponderou, filosoficamente, a Berta.
- Ela sessenta e cinco, e ele sessenta e oito – precisou o Mamede, aferidor da Câmara.
- Exactamente… - confirmou o dono da casa.
Era na loja do Guerra, sapateiro. O Mamede viera saber dumas meias solas nas botas de caça; a Berta já lá estava a ver se os sapatos do homem podiam ser gaspeados; de maneira que sem darem conta encontraram-se a falar do acontecimento da semana – a morte do Estrela e da mulher.
A princípio, o que diziam avolumava apenas a sombra dos ausentes.
- Coitados!... Sem filhos, de mais a mais…
Mas pouco a pouco os mortos foram ressuscitados em cada palavra pronunciada. O poder mágico do verbo ia-os avivando nas lembranças apagadas, e todos eles, que nunca tinham pensado sequer que conheciam o Estrela e a mulher, se puseram a seguir-lhes, fascinados, os passos no mundo. Milagrosamente, viam-nos reais e palpáveis, a retomar a vida habitual, ali, no Largo da Graça.
Começou o Estrela por abrir a porta da barbearia. Era barbeiro, o Estrela. Acabavam justamente de bater as onze. Nunca saía do quarto antes. E o Amadeu, o alfaiate, que com a rosa dos alfinetes ao peito, a fita métrica ao pescoço, e uma letra vencida no bolso mourejava desde manhã cedo, não podia engolir serenamente semelhante ultraje. (…)
(…) O Estrela, esse, vestia a bata e chegava-se à porta.
- Então Deus nos dê muito bons dias!
Cumprimentava ao mesmo tempo o mundo e o seu grande amigalhaço, o Gil, latoeiro e vizinho.
- Vamos a ele, ou quê?
- Tem de ser…
Era o mata-bicho sacramental. Bastava-lhes dobrar a esquina. O Moreira parece que mandava fabricar aquela aguardente no céu. Um sinal, apenas, e os cálices apareciam cheios e perfumados sobre o balcão.
- À nossa!
- Cá vai…
Pagavam, saíam, e o taberneiro, com açúcar na urina, arrasado de bronquite, e guardado como um carneiro pela mulher, desabafava sozinho:
- Que estômagos! Que saúde! Que naturezas! Porcaria de mundo! (…)
(…)- Boa tarde!
- Boa tarde!
- Barba?
- Barba e cabelo.
O violão, encostado à parede, pôs-se a mirar um canto do espelho.
- Pelos vistos, o senhor Estrela ainda lhe puxa pelo bordão!...
- Pouco. Só para matar saudades…Bons tempos! Tudo passa…
E o ano de 1896, o ano áureo do Estrela, começou a nascer na tarde morna.
- Custou-me a brincadeira oito dias à sombra. O malandro do sacristão! Era compadre dum polícia…Mas valeu a pena. O largo do Romal pareça o Terreiro do Paço. Talvez até mais bonito…
Quê?! O senhor Estrela conhecia o Terreiro do Paço?! A sério?! O Lucas, que nunca saíra da terra, parecia que estava diante dum milagre.
O Estrela teve um riso aberto de iluminado.
- Olha, olha, o Terreiro do Paço! Hã, ó Aninhas?
A D. Aninhas engrunhou-se um pouco, olhou um nadinha de lado, e começou a rir-se lá por dentro.
O Terreiro do Paço, a Mouraria, Cacilhas…Fechei o quiosque, e de comboio por aí a baixo foi o fim do mundo!
No rosto de ambos nem tudo agora eram sessenta e tantos de idade. Havia também a marca duma carícia funda da vida.
Mas a quê? A que tinham ido os dois a Lisboa?
Olharam-se ternamente, numa maliciosa cumplicidade.
- Hom’essa! (…)
(…)- Passear?!!!
- Pois!
Caladas, as moscas dançavam na sala cheia de quietude, espanto e silêncio. (…)
(…)- Passear!... – murmurou o Lucas, a remoer um pensamento fundo, de oficial de diligências.
- Olarilas! Por sinal que nos perdemos…Lembras-te, Aninhas?
- Se lembro!...
- Foi na rua… na rua… Ora deixa-me pensar… Rua do…
Mas a cabeça de ambos, nos últimos tempos, atraiçoava-os miseravelmente. Que, de resto, não era admiração nenhuma…já lá ia um par de anos…Mil novecentos e seis… Ou não? (…)
(…) Quantos dias nos demorámos ainda lá?
- Três…E se tínhamos ficado mais um, víamos o rei…
- É verdade!
- Qual?
Olharam-se ambos, numa ajuda mútua.
- Devia ser o D. Carlos… Ora em mil novecentos…
O ruído dos rodízios do relógio quebrou a data ao meio. As cinco horas vieram logo a seguir. (…)
(…) Bom homem, este Lucas! – disse por fim o Estrela, sem grande convicção.
- É…É… - repetiu, como um eco, a mulher.
A tarde caía docemente. O Estrela pegou no violão, sentou-se, e tirou dele um acorde que encheu a praça. Depois carregou a fundo na inspiração.

Se estou melhor das maleitas,
Se estou melhor das maleitas…

- Este bordão novo não presta. Ou então é do cavalete…
- Experimenta outro…
A voz dela, mansa, submissa, parecia ainda sair da loja fechada e triste.
Da sapataria via-se o largo inteiro; e, sem querer, olharam todos na direcção do 43.
- Uma verdadeira santa! – disse melancolicamente o Mamede. – Uma mulher assim faz a felicidade dum homem…
- Lá isso… - confessou, de consciência carregada, a Berta, que punha a alma negra ao marido. – Era o que o seu Manuel dissesse. Ninguém lhe conheceu outro querer. E a prova é que, apenas ele fechou os olhos, fechou os dela também. Não tinham mais que ver neste mundo.


Miguel Torga
foto desconheço Autor

10/01/2015

É quando...



É quando um espelho, no quarto,
se enfastia;
Quando a noite se destaca
da cortina;
Quando a carne tem o travo
da saliva,
e a saliva sabe a carne
dissolvida;
Quando a força de vontade
ressuscita;
Quando o pé sobre o sapato
se equilibra...
E quando às sete da tarde
morre o dia
- que dentro de nossas almas
se ilumina,
com luz lívida, a palavra
despedida.

David Mourão- Ferreira
foto desconheço Autor


24/12/2014

Natal...



Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde

Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale

Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual

Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida

Na tal em que o natal era Natal.

David Mourão-Ferreira

09/12/2014

O silêncio...



"O silêncio não é ausência da fala, é o dizer-se tudo sem nenhuma palavra."


Mia Couto

06/08/2013


"E aqui estou eu,
ausente diante desta mesa -
e ali fora o Tejo.
Entrei sem lhe dar um só olhar.
Passei, e não me lembrei de voltar a cabeça
e saudá-lo deste canto da praça:
"Olá, Tejo! Aqui estou eu outra vez!"

Não, não olhei.

Só depois que a sombra de Álvaro de Campos se sentou a meu lado
me lembrei que estavas aí, Tejo.
Passei e não te vi.
 
Passei e vim fechar-me dentro das quatro paredes, Tejo!
Não veio nenhum criado dizer-me se era esta a mesa
em que Fernando Pessoa se sentava, contigo e os outros invisíveis à sua volta,
inventando vidas que não queria ter.
Eles ignoram-no como eu te ignorei agora, Tejo.
Tudo são desconhecidos, tudo é ausência no mundo,
tudo indiferença e falta de resposta.  
Arrastas a tua massa enorme como um cortejo de glória,
e mesmo eu que sou poeta passo a teu lado de olhos fechados
Tejo que não és da minha infância,
mas que estás dentro de mim como uma presença indispensável,
majestade sem par nos monumentos dos homens,
imagem muito minha do eterno, porque és real e tens forma,
vida, ímpeto, porque tens vida, sobretudo,
meu Tejo sem corvetas nem memórias do passado...
Eu que me esqueci de te olhar!"

Adolfo Casais Monteiro
Foto Hélder Reis