Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. Os meus
próprios raros entusiasmos, se me lembro deles, logo se me esvaem - pois, ao
medi-los, encontro- os tão mesquinhos, tão de pacotilha… Quer saber? Outrora, à
noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por
momentos, entressonhando a glória, o amor, os êxtases… Mas hoje já não sei com
que sonhos me robustecer. Acastelei os maiores… eles próprios me fartaram: são
sempre os mesmos - e é impossível achar outros… Depois, não me saciam apenas as
coisas que possuo - aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como
nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se às vezes posso sofrer por não
possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que,
descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior
seria a minha dor, o meu tédio.
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO