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29/10/2014

Para quê?!




O marido não falava: lia o jornal. Quando não lia o jornal olhava a parede em frente. Aos domingos, a seguir ao almoço, ia ao quarto pôr a gravata e ficava à espera, junto à porta, sem uma palavra, que ela mudasse de roupa, desse um jeito ao cabelo, e viesse ter com ele. Então desciam do segundo andar a pé, porque o elevador não era de confiança, e saíam para o cinema. O marido mostrava dois dedos à empregada que vendia os bilhetes, explicando-lhe que duas pessoas, e apontava o cartaz do filme mais perto. No intervalo permaneciam sentados, diante do écran vazio, sem conversarem, da mesma forma que não conversavam no regresso a casa. Em casa a mulher mudava de novo de roupa para fazer o jantar. Ao acabar estava escuro na sala, nenhum candeeiro aceso e, no meio do escuro, o marido sentado no sofá em silêncio, com a mesa já posta, o que surpreendia a mulher dado que não se ouvia nenhum ruído de loiça. A mulher ligava as três lâmpadas do tecto e trazia a sopa. Depois da sopa o borrego. Depois do borrego o arroz doce. Depois do arroz doce o digestivo. Depois do digestivo arrumava tudo na máquina e instalava-se no sofá também, com o crochet. Se uma ambulância aos gritos na rua o prédio estremecia. Se nenhuma ambulância na rua as vozes do andar de cima e de vez em quando uma criança a chorar, de vez em quando uma discussão até que uma voz de homem
- Acabou-se a conversa
e com o
- Acabou-se a conversa
paz de novo. Em certas alturas a mulher quase desejava que o marido
- Acabou-se a conversa
também, mas era difícil acabar uma conversa que não tinha começado. Passada meia hora ou assim o marido ia deitar-se, e a mulher ficava a ouvir a escova de dentes eléctrica, conforme ouvia o estalo das tábuas da cama protestando contra o peso do marido. Era uma cama antiga, de bilros, a mesma da época em que casaram, trinta e seis anos antes. Toda a mobília, aliás, existia desde há trinta e seis anos antes, oferecida pelos pais dele, que não seriam ricos mas tinham algumas posses. Mais recente, que a mulher se lembrasse, só o tapete da sala que de resto principiava a gastar-se, sobretudo nos sítios onde os pés da mesa de apoio se afundavam nele, e nos quais já se percebia a trama. Por vontade sua a mulher mudaria o tapete, chegou a sugerir
- Era capaz de ser melhor mudarmos o tapete
porém, como não houve resposta, não teimou. Pensou em mudar o tapete sem o informar, visitou várias lojas estudando preços, perguntou-se
- Para quê?
e desistiu. Para quê, de facto? E demais a mais a gente vai-se habituando aos objectos e acaba por ter saudades deles quando desaparecem. Teria saudades do marido se ele desaparecesse? Julgou que sim, julgou que não, julgou que sim, cessou de julgar. Em trinta e seis anos o marido não desaparecera nunca e, portanto, seria pouco natural que desaparecesse agora, perto dos setenta. Para mais afigurava-se-lhe que de há semanas para cá ele começara a arrastar um pouco umas das pernas e de perna arrastada ninguém vai muito longe. Para onde iria ele, de resto? Não possuía amigos, não frequentava cafés, não recebiam nem visitavam fosse quem fosse, nunca reparara num soslaio interessado para senhora nenhuma: lia o jornal, olhava a parede e acabou-se. Há quantos lustros não lhe tocava? Ao calcular há quantos lustros não lhe tocava chegou-lhe do andar de cima um
- Acabou-se a conversa
que a sobressaltou o bastante para deixar os cálculos de lado. Há assuntos em que é melhor deixar as questões como estão, e a mulher era uma criatura prudente. Aos sessenta e cinco anos vai-se ganhando bom senso, para quê arranjar maçadas agora? De modo que acabou por ir para a cama também, guiando-se pela claridade dos intervalos dos estores. Ao deitar-se nenhuma tábua estalou, o marido dormia numa respiração lenta, quando se preparava para se voltar para um dos lados percebeu-lhe um murmúrio
- Sissi
e ficou a repetir para dentro
- Sissi, Sissi
por acaso o nome da empregada que vinha uma tarde por semana ajudar nas limpezas, uma criatura baixa e gorda, viúva, com o filho preso por uma questão de drogas ou um problema no género. A criatura baixa e gorda não era de grandes expansões e o marido, estava certa disso, nem atentava nela. Nem atentava nela? Se nem atentava nela porque carga de água o
- Sissi
num soprozinho que classificou de enternecido? Decidiu sacudir-lhe o ombro
- Que história é essa da Sissi?
meditou com mais calma, não se atreveu, porém o facto é que não conseguia livrar-se daquele nome. Foi à cozinha beber água para acalmar os nervos, descalça, sujeitando-se a uma constipação ou uma gripe, o azulejos gelados, ela sensível do nariz, o médico, na última consulta
- Atenção aos pulmões que já não vai para nova
e a hipótese de uma pneumonia aterrou-a. Na bancada estavam algumas facturas por pagar e no meio das facturas uma página solta do bloco onde assentava as coisas a comprar no centro comercial, em que encontrou escrito
- Até para a semana meu ursinho rechonchudo, Sissi
e ficou séculos a reler aquilo, aparvalhada, Meu ursinho rechonchudo, Sissi, meu ursinho rechonchudo, Sissi, até que principiou a sentir-se cansada, estrangulou um bocejo e decidiu voltar para a cama. Ao fim de trinta e seis anos não era fácil substituir o marido mas podia muito bem substituir o tapete da sala. E, com um tapete novo na ideia, adormeceu quase contente.


António Lobo Antunes

22/10/2014

Palavra de honra (?)



Palavra de honra que não estava nada à espera. Primeiro porque aos cinquenta e dois anos não se espera grande coisa, a não ser o médico a informar que um dos rins não está bem, e segundo porque em tantos meses a almoçarmos no mesmo restaurante, cada qual na sua mesa, eu com uma revista e ele com o jornal, nunca dei por qualquer soslaio, qualquer atenção, qualquer interesse da sua parte. Às vezes subia das páginas por causa de uma rapariga, que podia ser minha filha, a comer uma sopa ao balcão, passava-lhe uma luz nos óculos, a luz apagava-se, enfiava o queixo nas notícias, se calhar a aceitar, conformado
- Podia ser minha filha
pedia a conta antes de mim numa lentidão vencida, não deixava gorjeta que os tempos não estão para generosidades, ia-se embora um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo, via-o lá fora a acender um cigarro, a ingressar na bicha do multibanco, a meter um papelinho na carteira, a sumir-se por fim, lento, pausado, cuidadoso com os semáforos, e perdia-o até ao dia seguinte, em que uma alheira e o diário, ou uma corvina e o diário, ou meia de lulas e o diário, ou um clarãozinho nas dioptrias a propósito de uma sopa e uma rapariga que podia ser nossa filha. Portanto palavra de honra que não estava nada à espera quando hoje entrou no restaurante depois de mim, um pouco gordo, um pouco marreco, de cabeça talvez um bocadinho grande demais para o corpo e, apesar de haver duas ou três mesas sem ninguém, aproximou-se da minha e perguntou-me, numa voz que não ligava com a boca, se me importava que se sentasse à minha frente. De início nem percebi bem. Consegui um
- Perdão?
atrapalhado, a impedir, no último momento, o copo de água de se entornar porque um dos meus cotovelos, ou uma das minhas mãos, ou a minha revista o tombavam, ele insistiu, na tal voz que não ligava com a boca e eu imaginava cheia, redonda, suave, em lugar de mole, aguda, raspante
(mas isso são pormenores, o que interessa é a personalidade e o carácter)
- Não se importa que me instale aqui?
de maneira que eu
- Ora essa
a puxar o rectângulo de papel do prato, dos talheres, do guardanapo, de maneira a abrir espaço para o rectângulo dele, repetindo sem dar fé
- Ora essa, ora essa
de súbito consciente que mal penteada, mal pintada, mal vestida, sapatos rasos, meias cor de carne, pior que meias, collants, soutien cor de carne igualmente, um anelzeco de pacotilha, um colar sem relação com a blusa, brincos minúsculos, a pulseira idiota que uma sobrinha me impingiu, dois terços de baton já no guardanapo, os dentes, a necessitarem de ser limpos, teimando
- Ora essa, ora essa
enquanto ele estudava a ementa, longíssimo de mim embora ali...
(...)

António Lobo Antunes