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25/10/2014

Se existisse céu...




Se existisse céu seria na nossa cama.
Escrevo-te com o teu corpo, adormecido, ao lado. Ouço a tua respiração e sei que respiro, sei que respirar é apenas o momento em que te ouço respirar. Respiras. E eu estou vivo.
Na nossa cama nenhuma vida entra. Somos nós, egoisticamente nós. Só nós. Apenas nós. Na nossa cama nem Deus consegue entrar.
Somos tão grandes que religião alguma nos poderia definir.
E os nossos lençóis. Se fossem gente só saberiam sorrir. Amar-te é ter os lençóis mais felizes do mundo.
Todos os lençóis mereciam uma vida assim.
Dormes enquanto te escrevo. Olho-te (o teu rosto como se me dissesse que a vida é isto: o teu rosto deitado enquanto te escrevo) e sei que te espero. Espero que venhas, que acordes para o abraço. Espero que chegues do sonho e que acordes no sonho. E nada me chega. Nada me completa. Quero de ti tudo o que és. No mínimo tudo. No mínimo quero tudo de ti.
A eternidade. Eis o que basta para te poder amar com algum tempo.
Ontem adormecemos no sofá. Adormecemos sempre no sofá. E no espaço em que nem um cabia coubemos os dois. Cabemos sempre os dois.
Cabemos sempre os dois. Eis o que o mundo todo deveria aprender.
Somos tão grandes que cabemos sempre os dois.
E para onde um vai o outro está. E para onde um sonha o outro faz. Somos companheiros de todos os instantes, confidentes de todos os segredos. Antes de ti acreditava que chegarias. E chegaste.
Vieste com a naturalidade de quem me pertence. E eu pertenci-te. Pertencemo-nos no momento em que percebemos que já não havia depois, que já não havia antes. Nada te precedeu, nada te sobreviverá.
E todas as palavras ficarão por dizer.
Mas nenhum abraço ficará por apertar.
Acorda. Por favor acorda. Tenho de te dar mais um.


 Pedro chagas de freitas

07/12/2011

Se eu morrer de manhã...

 



Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria

30/08/2010

Dez réis de esperança


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

António Gedeão