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18/11/2012

Sempre foi tarde mesmo quando ainda era muito cedo

 



a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer

eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era muito cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol

e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos

e qualquer outra estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro de águas perdidas

por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou

vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as suas mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas

vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um
o amor que lhe compete.



(Alice Vieira, Pelas Mãos e Pelos Olhos Eu Juro)

27/04/2010

O Livro dos Amantes


I
Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.
E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.
II
Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
III
Príncipe secreto da aventura
em meus olhos um dia começada e finita.
Onda de amargura numa água tranquila.
Flor insegura enlaçada no vento que a suporta.
Pássaro esquivo em meus ombros de aragem
reacendendo em cadência e em passagem
a lua que trazia e que apagou.
IV
Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
errando mais nítido à distância
onde te exalto porque te demoras.
V
Toma o meu corpo transparente
no que ultrapassa tua exigência taciturna
Dou-me arrepiando em tua face
uma aragem nocturna.
Vem contemplar nos meus olhos de vidente
a morte que procuras
nos braços que te possuem para além de ter-te.
Toma-me nesta pureza com ângulos de tragédia.
Fica naquele gosto a sangue
que tem por vezes a boca da inocência.
VI
Aumentámos a vida com palavras
água a correr num fundo tão vazio.
As vidas são histórias aumentadas.
Há que ser rio.
Passámos tanta vez naquela estrada
talvez a curva onde se ilude o mundo.
O amor é ser-se dono e não ter nada.
Mas pede tudo.
VII
Tu pedes-me a noção de ser concreta
num sorriso num gesto no que abstrai
a minha exactidão em estar repleta
do que mais fica quando de mim vai.
Tu pedes-me uma parcela de certeza
um desmentido do meu ser virtual
livre no resultado de pureza
da soma do meu bem e do meu mal.
Deixa-me assim ficar. E tu comigo
sem tempo na viagem de entender
o que persigo quando te persigo.
Deixa-me assim ficar no que consente
a minha alma no gosto de reter-te
essencial. Onde quer que te invente.
VIII
Eis-me sem explicações
crucificada em amor:
boca o fruto e o sabor.
IX
Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.
Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

Natália Correia