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20/12/2014

Ofereço-te palavras...



Se terminar este poema, partirás. Depois da
mordedura vã do meu silêncio e das pedras
que te atirei ao coração, a poesia é a última
coincidência que nos une. Enquanto escrevo
este poema, a mesma neblina que impede a
memória límpida dos sonhos e confunde os
navios ao retalharem um mar desconhecido

está dentro dos meus olhos – porque é difícil
olhar para ti neste preciso instante sabendo que
não estarias aqui se eu não escrevesse. E eu, que

continuo a amar-te em surdina com essa inércia
sóbria das montanhas, ofereço-te palavras, e não
beijos, porque o poema é o único refúgio onde
podemos repetir o lume dos antigos encontros.

Mas agora pedes-me que pare, que fique por aqui,
que apenas escreva até ao fim mais esta página
(que, como as outras, será somente tua – esse

beijo que já não desejas dos meus lábios). E eu, que
aprendi tudo sobre as despedidas porque a saudade
nos faz adultos para sempre, sei que te perderei

em qualquer caso: se terminar o poema, partirás;
e, no entanto, se o interromper, desvanecer-se-á
a última coincidência que nos une.


Maria do Rosário Pedreira
foto desconheço Autor







10/03/2013

Se eu morrer de manhã


 

Se eu morrer de manhã

abre a janela devagar

e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:

ter tido a morte é mais do que mereço

se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar

e um pedaço de céu

- o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa

que não saber voar

foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.

Não chames o meu nome que eu não venho

e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.

Deixa que eu faça o meu papel de morta

pois não estar é da morte quanto sei.

Rosa Lobato de Faria

29/11/2012

Exercício



Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio,
e vejo saírem de dentro dele as palavras que
ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco
...


...com o álcool da memória, para que se
transformem num licor de remorso; outras,
guardo-as na cabeça para as dizer, um dia,
a quem me perguntou o que significavam.
Mas o silêncio de onde as palavras saíram
volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor
do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras
que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só
o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro.

Nuno Júdice

21/10/2010

Coração sem imagens



Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu inventei-te.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho

22/08/2010

Tu...



enlouqueces-me maravilhas-me atrapalhas-me apaixonas-me cegas-me confundes-me.

Tu inspiras-me.
Tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu tu ...

Quero tanto de ti e tão próximo que anseio que fosses o ar, o chão, as paredes tudo.

Tudo.Que tudo o que tocasse fossem os teus braços.

Que tudo o que sentisse fossem os teus lábios.
Como quando fecho os olhos e tudo o que não vejo és tu.
Como quando não durmo e tudo o que sonho és tu.
Contigo não consigo respirar. Sem ti não consigo viver.

Quero estar tão dentro de ti que nem a luz do dia exista para mim.
Quero abraçar-te tanto que todo o mundo colapse
e desapareça num pequeno ponto entre os meus braços.

Toca-me com as tuas mãos.
Faz-me desaparecer com a tua pele.
Sufoca-me na tua língu
Arrasta-me pelo ar com o teu perfume.
Mata-me de vez.

Tu
Se fosses chuva, do céu só cairiam pérolas ...
E até o chão gritaria de prazer.

Maria Teresa Horta

02/07/2010

Poentes de Inverno



Quando a brasa do sol, ao fim da tarde,
Mergulha atrás dos montes lentamente,
Tudo parece que se inflama e arde,
Febril, na rubra irradiação do poente.

Frouxos os nervos, o ânimo cobarde,
Como num sonho que esmorece, a gente
Fica-se a olhar o Sol, ao fim da tarde
Té que a tristeza em lágrimas rebente.

Tristezas, lágrimas! Meu Deus, quem há-de,
Quando ao longe se pôs, da mocidade,
O Sol que nos doirava a alma e o rosto,

Olhar sem mágoa os trágicos poentes...
Porque choras, velhice? - É porque sentes
Que não volta a nascer o teu sol-posto!

Conde de Monsaraz