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10/06/2013

“Ninguém se conhece como nós nos conhecemos”.
Não há dois amantes que não gostem de afirmar isto,
de reconhecer isto, ou de recordar: “naquele dia
os nossos olhos disseram tanta coisa!”, como se ambos
fossem os escolhidos, as almas gémeas, os anjos que
dizem “nos meus sonhos eras assim, exactamente assim”.
Mas tu dizes “afinal não te conheço ao fim de tanto tempo,
ainda não sei na realidade quem tu és…”. Na vida,
acontecem-nos tantas coisas, estamos sempre atrasados
para uma consulta, damos desculpas, fingimos
todas as urgências, e às vezes perguntamos
“por que estou eu a fazer isto?”
Numa sala cheia de gente há sempre um estranho,
alguém que identificamos entre desconhecidos, e é nele
que destapamos o olhar ou tropeçamos desastradamente.
Não nos conhecemos, não nos conheceremos nunca,
não gostamos da maneira como nos tratamos
um ao outro
nem do modo como nos justificamos,
nem do silêncio que tecemos quando
já não queremos justificar seja o que for.
Ninguém se desconhece, meu amor,
como nós nos desconhecemos. E vês?
porque te chamo “meu amor” se não se pode amar
quem se desconhece, a ti, que nos meus sonhos
nunca foste “exactamente assim” e que na vida
não tinhas forçosamente de me encontrar, porque
o acaso existe, existe mesmo, e nós só estamos juntos
para provar que é mesmo assim.
Se não me preocupo contigo, não te amo.
E como se pode conhecer quem não se ama, alguém
que nunca foi aquela que é impossível
ver alguma vez partir sem perguntar: “O que fiz eu?
O que fiz eu? O que fiz eu?”.
O que nos diríamos se soubéssemos que era hoje
o nosso último dia de vida?
O que teríamos para nos dar?
Eu não consigo pensar. E tu, decerto,
não terás respostas. Nenhum de nós tem planos,
nenhum de nós consegue distinguir a verdade
de uma boa desculpa, provavelmente surpreendidos
pelo facto de ainda estarmos aqui, admitindo
apenas que o outro se está a aguentar
o melhor que pode.
Costumo rir-me nos funerais, apesar
de não ser essa a minha verdadeira intenção.
Todos nós fazemos coisas para as quais não temos
uma justificação imediata. E pensamos: “tenho de sair
daqui, tenho de portar-me bem e ser correcto”.
Está sempre alguém à porta para nos chamar à atenção.
Eu nem sequer me recordo do teu último beijo,
não me lembro já do teu cheiro nem
da roupa que vestias. Esse é o drama
das pequenas coisas, das coisas que
não nos atrevemos a dizer
e que nunca serão recordações.
No dia de hoje,
os nossos olhos já não dizem nada,
e o nosso corpo não festejará uma vez mais
o romper da primavera. É outono
nas palavras que trocamos. E é tão tarde
para prestar-te esta última homenagem.

Joaquim Pessoa

07/06/2010

Reportagem



Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento...

ANTÓNIO BOTTO