Meu caro Fernando
É de lodo e nódoa este país que vejo
Babado e sabujo gastando-te o nome
Despudoradamente
Remexem-te a arca acordando os silêncios
De todos os teus versos outrora negados
E não deixam mais que descanses em paz
Os ossos cansados e essa tua cirrose
Tão laboriosamente bebida e consentida
Desnudam-te a alma, as cartas, os sonhos
E os desesperos que sozinho viveste
Nas sombrias paredes de humílimos quartos
Dissecando as contas que nunca pagaste
Ávidos de nome, e para darem nas vistas
Rasgam-te as ceroulas que nunca despiste
Para a tua Ofélia que amaste demais
E outorgam-te paixões individualistas
E homo-fatais
E certos ratos de bibliotecas pardas
Exauridos de raiva e de ciúme indispostos
Quase negam as quadras grandiosas e simples
Com que o povo te lembra, te soletra e canta
(tu que foste poeta para todos os gostos)
Sequiosos de fama, e de dinheiro famintos
Masturbam discursos sobre o teu passado
E esfregam-se nas praias do teu frágil corpo
Curvado à angústia de tanto desprezo
E à febre de um sonho etilizado
E tudo isto, Fernando, por que nunca te amaram
Nem compreenderam que no verso mais triste
Escuro ou sombrio que te acontecia
Palpitava inteira, universal e pura
A razão de ser da poesia
Por uma vez, agora, levanta-te Fernando
Levanta-te do túmulo e vem cuspir-lhes na cara
O teu sorriso inquieto, descomunal e mudo
Mesmo doente e bêbado
Esclerótico e tudo
Fernando Campos de Castro
(in livro VIOLAÇÃO DA NOITE)

