Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta saudade. Mostrar todas as mensagens

09/03/2015

Distância...



Não vás para tão longe!
Vem sentar-te
Aqui na chaise-longue, ao pé de mim...
Tenho o desejo doido de contar-te
Estas saudades que não tinham fim.

Não vás para tão longe;
Quero ver
Se ainda sabes olhar-me como d'antes,
E se nas tuas mãos acariciantes,
Inda existe o perfume de que eu gosto.

Não vás para tão longe!
Tenho medo
Do silêncio pesado d'esta sala...
Como soluça o vento no arvoredo!
E a tua voz, amor, como se cala!

Não vás para tão longe!
Antigamente,
Era sempre demais o curto espaço
Que havia entre nós dois...
Agora, um embaraço,
Hesitas e depois,
Com um gesto de tédio e de cansaço,
Achas inconveniente
O meu abraço.

Não vás para tão longe!
Fica. Inda é tão cedo!
O vento continua a fustigar
Os ramos sofredores do arvoredo,
E eu ponho-me a pensar
E tenho medo!

Não vás para tão longe!
Na sombra impenetrada,
Como se agita e se debate o vento!...
Paira nas velhas ruínas do convento

Que além se avista,
A alma melancólica d'um monge
Que a vida arremessou àquela crista...

Céu apagado, negro, pessimista,
E tu sempre mais longe!...

Fernanda de Castro
foto António Pereira

21/07/2013


 EM LISBOA COM CESÁRIO VERDE


 Nesta cidade, onde agora me sinto
mais estrangeiro que um gato persa;
 Nesta Lisboa onde mansos e lisos
 os dias passam a ver as gaivotas,
 e a cor dos jacarandás floridos
 se mistura à do Tejo, em flor também,
 só o Cesário vem ao meu encontro,
me faz companhia, quando de rua
em rua procuro um rumor distante
 de passos ou aves, nem eu sei já bem.
 Só ele ajusta a luz feliz dos seus
 versos aos olhos ardidos que são
 os meus agora; só ele traz a sombra
 dum verão muito antigo, com corvetas
 lentas ainda no rio, e a música,
 o sumo do sol a escorrer da boca,
 ó minha infância, meu jardim fechado,
 ó meu poeta, talvez fosse contigo
 que aprendi a pesar sílaba a sílaba
 cada palavra, essas que tu levaste
 quase sempre, como poucos mais,
 à suprema perfeição da língua.

 Eugénio de Andrade (1923-2005)

 

10/07/2013


"Daqui a 50 anos eu ainda vou saber o teu nome, lembrar todas as vezes que me fizeste sorrir. Na minha memória, tão congestionada e no meu coração, tão cheio de marcas e poços, ocupas um dos lugares mais bonitos".

 

 Caio Fernando Abreu

13/11/2012

Lisboa e Tejo e Tudo...

 
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
(...)
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavoro...
samente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...

Álvaro de Campos

10/10/2012

"lembro-me da minha mão
pousada sobre a tua e esse instante está debaixo
da palavra solidão".

(josé luís peixoto)