Se ao menos soubesses tudo o que
eu não disse
ou se ao menos me desses as mãos
como quem beija
e não partisses, assim,
empurrando o vento
com o coração aflito, sufocado
de segredos;
se ao menos percebesses que eram
nossos
todos os bancos de todos os
jardins;
se ao menos guardasses nos teus
gestos essa bandeira de lirismo
que ambos empunhámos na cidade
clandestina
quando as manhãs cheiravam a
óleos e a flores
e o inverno espreitava ainda nas
esquinas
como uma criança tremendo;
se ao menos tivesses levado as
minhas mãos
para tocar os teus dedos,
para guardar o teu corpo;
se ao menos tivesses quebrado o
riso frio dos espelhos
onde o teu rosto se esconde no
meu rosto
e a minha boca lembra a tua
despedida,
talvez que, hoje, meu amor, eu
pudesse esquecer
essa cor perdida nos teus olhos.
Joaquim Pessoa



