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07/04/2015

Durante o sono...


Durante o sono retiraram-me uma costela
Ficou-me no peito um vazio que não consigo preencher
Custa-me a respirar
Eu quero de volta a minha costela
quero de volta todas as costelas
Quero de volta o paraíso
quero de volta o silêncio rumorejante
quero de volta as poluições noturnas
e diurnas
Quero uma mulher
feita de chuva
e vento
e fogo
e neve
e luz
e breu
e não de argila
como eu.


Jorge de Sousa Braga

13/03/2015

Alheamento...




Meu corpo estiraçado, lânguido, ao longo do leito.
O cigarro vago azulando os meus dedos.
O rádio... a música...
A tua presença que esvoaça
em torno do cigarro, do ar, da música...
Ausência!, minha doce fuga!
Estranha coisa esta, a poesia,
que vai entornando mágoa nas horas
como um orvalho de lágrimas, escorrendo dos vidros
duma janela,
numa tarde vaga, vaga...


Fernando Namora

12/02/2012

Para quê sonhar?

Antes de partires já cá não estavas por isso, sinceramente, nem posso dizer que dou pela tua falta. Aliás, sei que não preciso de ti, tenho a certeza porque a vida continua e, se queres saber a verdade, tenho saído com os meus amigos, tenho-me divertido à grande.

Por isso mesmo, não vale a pena deixares-me mensagens imbecis no telemóvel, até porque sempre que o fazes reconheço a tua voz entorpecida, aquela voz de quem já bebeu de mais. Este e-mail é só para te dizer que podes vir buscar o resto das tuas coisas quando quiseres, está tudo no quarto lá de dentro.

Aproveita e deixa a chave, se fazes favor. Ah, e se nos encontrarmos por aí, na noite, não vale a pena dirigir-me a palavra. É melhor assim. Afastou a cadeira e olhou para o ecrã do computador.

Era exactamente aquilo que lhe queria dizer, mas não conseguia enviar o e-mail, como se de repente os dedos tivessem ficado presos. «Que idiota que eu sou!» a mensagem seguiu, levantou-se da mesa e foi servir um copo de vinho tinto. O telemóvel tocava e não quis saber quem era.

Bebeu o vinho com tragos pequeninos, os olhos colados na janela, lá fora pessoas que se moviam com rapidez. Era mais uma página fechada, mais um vazio que se instalava dentro de si. Mais um erro. E por mais que representasse que estava bem, por mais que dissesse a todos que a vida era assim, tudo acabava, era normal, aquilo que sentia era bem diferente.

Mais do que a falta dele, era aquele medo terrível de que o futuro fosse apenas isso, uma sucessão de erros. Uma solidão que persistia quando estava acompanhada e quando ficava só. Ninguém lhe dissera que ia ser tão difícil. E ali a olhar Lisboa, uma única ideia não a abandonava: para quê sonhar?

Luísa Castel – Branco

10/06/2011

Deixei de ouvir-te


Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.


Maria do Rosário Pedreira