Só quando os homens chegam a uma certa idade é que podem
dizer com certeza que as mulheres são melhores do que eles em tudo - mesmo na
bola, a carregar pianos, a lutar com jacarés ou nas outras coisas em que
ganhávamos quando éramos mais novos e brutos e fortes.
Quando se é adolescente, desconfia-se que elas são melhores.
Nos vintes, fica-se com a certeza. Nos trintas, aprende-se a disfarçar. Nos
quarentas, ganha-se juízo e desiste-se. Nos cinquentas, começa-se a dar graças a
Deus que seja assim. Os homens que discordam são os que não foram capazes de
aprender com as mulheres (por exemplo, a serem homenzinhos), por medo ou
vaidade ou estupidez. Geralmente as três coisas.
Desde pequenino, habituei-me que havia sempre pelo menos uma
mulher melhor do que eu. Começou logo com a minha linda e maravilhosa mãe, cuja
superioridade - que condescendia, por amor, em esconder de vez em quando - tem
vindo a revelar-se cada vez mais. As mulheres são melhores e estão fartas de
sabê-lo. Mas, como os gatos, sabem que ganham em esconder a superioridade. Os
desgraçados dos cães, tal como os homens, são tão inseguros e sedentos de
aprovação que se deixam treinar. Resultado: fartam-se de trabalhar e de fazer
figuras tristes, nas casas e nas caças e nos circos. Os gatos, sendo muito mais
inteligentes, acrobatas e jeitosos, sabem muito bem que o exibicionismo vão
leva à escravatura vil.
Isto não é conversa de engate. É até um tira-tesões. Mas é a
verdade. E é bonita.
Miguel Esteves Cardoso


